Na manhã desta terça‑feira (13), o escritor haitiano‑canadense Thélyson Orélien respondeu às graves acusações de que teria recorrido a inteligência artificial para compor seu romance best‑seller, ao mesmo tempo em que reconheceu ter praticado plágio em obras publicadas no passado. O episódio ganhou destaque nos principais veículos de imprensa da França e do Canadá, gerando intenso debate sobre ética, raça e mérito no universo literário.
Acusações de uso de inteligência artificial
Uma conta pouco conhecida na rede social X, intitulada “Balance ton Claude”, alegou em setembro que uma ferramenta de detecção de IA indicou que o romance de 2026, C’était Ça ou Mourir, teria sido escrito quase integralmente por algoritmos. O ensaísta francês Samuel Fitoussi se apresentou como administrador da conta, afirmando que a mesma era operada por um grupo de pessoas não identificadas.
Segundo a denúncia, o texto apresentaria padrões típicos de produção automatizada, como repetições de frases e falta de profundidade emocional. A alegação foi amplamente compartilhada, alimentando suspeitas sobre a autenticidade da obra premiada.
Histórico de plágio revelado
Em paralelo, o jornal canadense La Presse trouxe à tona duas ocorrências de plágio envolvendo o autor. O primeiro caso remonta a 2012, quando um conto de Orélien teria copiado trechos do livro do escritor francês Louis Pauwels. O segundo incidente, de 2013, apontou que um artigo de opinião do autor foi reproduzido quase integralmente do jornal The Philippine Star.
- 2012 – trecho de conto copiado de Louis Pauwels.
- 2013 – artigo de opinião retirado de The Philippine Star.
Essas revelações foram acompanhadas por documentos e comparações textuais que reforçaram a acusação de plágio, colocando em xeque a integridade da produção literária de Orélien.
Reação do autor e impacto no meio literário
Em carta enviada à Reuters e a outros veículos de mídia por meio de sua editora francesa, a Grasset, Orélien negou categoricamente o uso de IA, mas admitiu que cometeu plágio no passado. Ele descreveu suas ações como “erros inaceitáveis” e explicou que a admiração por outros escritores não justifica apresentar o trabalho alheio como próprio.
O autor também denunciou o que chamou de “linchamento midiático” e “assédio racista”, alegando que as ameaças recebidas nas últimas semanas são insuportáveis. Ele reforçou que deseja que seu romance seja avaliado “pelo que é”, ou seja, como um relato autêntico das dores e esperanças de migrantes haitianos.
O caso provocou um intenso debate entre críticos, escritores e leitores, que passaram a questionar não apenas a originalidade da obra, mas também as possíveis influências de preconceitos raciais nas críticas e nas decisões de premiação.
Consequências e perspectivas futuras
Como consequência direta das acusações, o prestigiado prêmio literário francês Goncourt retirou o livro da lista de indicados, gerando controvérsia sobre a transparência dos processos de seleção. A retirada foi vista por alguns como medida necessária para preservar a integridade do prêmio, enquanto outros a consideraram uma resposta excessiva diante de acusações ainda não totalmente comprovadas.
O romance, que narra a jornada de um migrante haitiano atravessando a América Latina até chegar ao Canadá, havia sido aclamado por sua sensibilidade e recebeu diversos prêmios literários. A obra ainda está prevista para ser traduzida para vários idiomas, embora o futuro das traduções esteja agora incerto.
Orélien afirmou que continuará escrevendo, enfatizando que seu trabalho nasce das “feridas do exílio” que jamais se curam. Ele prometeu que, nos próximos projetos, adotará procedimentos rigorosos de verificação para evitar novas controvérsias.
Especialistas em ética literária sugerem que o caso pode servir de alerta para a comunidade editorial, que deve reforçar políticas de checagem de originalidade e transparência no uso de tecnologias emergentes, como a inteligência artificial.
Enquanto isso, leitores aguardam esclarecimentos adicionais e a publicação de uma nova edição do romance, caso o autor decida revisá‑lo à luz das críticas recebidas.








