Com a inflação nos Estados Unidos atingindo níveis recordes em setembro de 2024, milhares de famílias estão adotando medidas extremas para garantir o sustento. Em cidades como Nashville, Tennessee, e regiões da Califórnia, trabalhadores de diferentes setores relatam jornadas de três empregos e vendas online para cobrir despesas básicas. O cenário econômico pressionou o orçamento familiar de forma inédita, obrigando a repensar hábitos de consumo e a buscar fontes de renda alternativas.
Três empregos para pagar as contas: o caso de Kathryn Vaughn
Kathryn Vaughn, de 46 anos, mora em uma zona rural do Tennessee e tem sido exemplo de resiliência. No segundo semestre de 2024, ela voltou a lecionar artes em uma escola primária, mas a remuneração não foi suficiente para sustentar sua casa. Para complementar, assumiu um segundo turno como facilitadora em um programa de apoio a jovens em risco, permitindo que seu filho de cinco anos a acompanhasse e reduzindo custos de creche.
Além dessas duas funções, Vaughn entrou no mercado de revenda de objetos pessoais. Ela vende roupas e acessórios em plataformas como ThredUp e Poshmark, e ainda comercializa itens domésticos em grupos do Facebook. A estratégia de “modelo de mãos” – transformar objetos que ficam parados em renda extra – tem sido vital, mas ainda não cobre todas as despesas.
Para fechar o ciclo de renda, Vaughn aceita trabalhos pontuais escrevendo obituários. Embora pareça incomum, a demanda por textos que honrem vidas recentemente perdidas gera uma pequena, porém constante, fonte de dinheiro. Mesmo somando todas as três atividades, a professora ainda sente que o orçamento está apertado, sobretudo diante do aumento de preços de energia e alimentos.
O peso da gasolina e da carne moída no orçamento familiar
Punal Bhavsar, de 39 anos, mora na Califórnia e compartilha uma realidade semelhante. Ele dirigia um carro que exige gasolina premium, cujo preço chegou a quase US$ 6 por galão – cerca de R$ 8 por litro. Esse custo elevado tornou impossível economizar para o objetivo de comprar uma casa, meta que ele acreditava alcançar em 2026.
Em Utah, Caitlin Green relata que o preço da carne moída disparou de US$ 4,40 por quilo para US$ 17,60, quase quadruplicando o valor em poucos meses. Antes, a família gastava cerca de US$ 200 mensais em supermercado; hoje, a conta chega a US$ 400, equivalentes a R$ 2 mil. Essa pressão fez com que substituam a carne bovina por frango ou peru moído, ainda que a carne moída esteja se tornando um item de luxo.
Esses aumentos refletem um padrão nacional: o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) subiu 3,7% nos últimos 12 meses, superando as previsões. O preço do diesel bate recordes, e a gasolina acompanha a tendência, afetando diretamente o custo de transporte, alimentação e até de serviços essenciais.
- Vender itens usados em plataformas digitais.
- Assumir trabalhos temporários, como escrita de obituários.
- Reduzir despesas de creche ao levar filhos ao trabalho.
- Trocar carnes caras por alternativas mais baratas.
Como a crise de custo de vida está moldando o comportamento dos eleitores
Em setembro, o Índice Gallup de Confiança na Economia registrou -40, indicando pessimismo generalizado entre os americanos. Uma pesquisa do The Guardian revelou que 95% dos entrevistados acreditam que o país está vivendo uma crise de custo de vida. Esse sentimento está influenciando diretamente as próximas eleições de meio de mandato, marcadas para novembro de 2024.
Bhavsar afirma que a questão econômica será decisiva ao escolher seu candidato, pois a inflação afeta diretamente seu futuro financeiro. O mesmo ocorre em outras regiões, onde eleitores estão avaliando propostas que prometem controle de preços, incentivos à energia renovável e políticas de auxílio direto às famílias de baixa renda.
Especialistas apontam que a pressão inflacionária pode beneficiar candidatos que ofereçam soluções práticas, como subsídios ao transporte público, redução de tarifas de energia e programas de apoio à habitação. Ao mesmo tempo, movimentos de protesto e organização comunitária têm ganhado força, com grupos de consumidores exigindo transparência nos preços e medidas regulatórias mais rígidas.
Enquanto isso, famílias como a de Vaughn continuam a buscar alternativas criativas para sobreviver. A combinação de múltiplos empregos, venda de bens usados e ajustes na alimentação demonstra a capacidade de adaptação, mas também evidencia a necessidade de políticas públicas que aliviem o peso da inflação sobre os cidadãos.








