Em outubro de 2024, no corredor 15 de um grande supermercado de Londres, uma consumidora se depara com a dúvida de que tipos de alimentos realmente podem ser consumidos sem comprometer a saúde. Ela entrega sua lista de compras a uma nutricionista para entender se os produtos ultraprocessados presentes são realmente nocivos.
O que são alimentos ultraprocessados?
Segundo a classificação NOVA, utilizada por pesquisadores ao redor do mundo, um alimento ultraprocessado não é definido apenas pela quantidade de ingredientes, mas pela forma como esses ingredientes são combinados e processados industrialmente. Esses produtos passam por múltiplas etapas de fabricação, recebem aditivos como emulsificantes, aromatizantes, corantes e adoçantes, e geralmente não são preparados em cozinhas domésticas.
Exemplos típicos incluem cereais matinais adoçados, snacks industrializados, refeições prontas congeladas e carnes processadas como nuggets. Mesmo produtos que parecem saudáveis, como alguns iogurtes com frutas, podem conter aditivos que os enquadram nessa categoria.
Impactos na saúde segundo a ciência
Um crescente corpo de evidências associa o consumo elevado de alimentos ultraprocessados a problemas como obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e distúrbios metabólicos. Estudos recentes também apontam possíveis ligações com saúde mental, como aumento de sintomas depressivos, e um risco maior de mortalidade precoce.
Entretanto, especialistas ainda debatem se esses efeitos decorrem apenas do alto teor de gorduras, açúcares, sódio e calorias, ou se o próprio processo industrial altera a estrutura dos alimentos de maneira prejudicial. Essa discussão mantém o tema em constante evolução nas pesquisas nutricionais.
Para ilustrar a magnitude do consumo, mais da metade das calorias ingeridas no Reino Unido provêm de alimentos ultraprocessados, segundo dados de 2023. O médico Chris van Tulleken, autor de livros e documentários sobre o assunto, descreve esses produtos como “quase impossíveis de evitar” na dieta moderna.
Como avaliar o carrinho de compras sem pânico
A nutricionista Maeve Hanan, membro da Associação Britânica de Dietética, enfatiza que a presença de alguns itens ultraprocessados não torna a lista de compras automaticamente “ruim”. Ela destaca que a qualidade nutricional global é o fator mais relevante, e que muitos desses produtos podem ser incluídos de forma equilibrada.
Hanan observa que a “histeria” em torno desses alimentos nasce de mensagens simplistas que os dividem em “bons” ou “ruins”. Essa abordagem polarizada gera medo desnecessário, que pode levar a escolhas alimentares ainda menos saudáveis.
Para quem quer manter uma alimentação balanceada, a especialista recomenda observar três aspectos principais ao analisar cada item:
- Composição nutricional: verifique a quantidade de fibras, proteínas, vitaminas e minerais.
- Presença de aditivos críticos: limite produtos com alto teor de corantes, aromatizantes artificiais e adoçantes de baixa qualidade.
- Frequência de consumo: alimentos ultraprocessados podem ser consumidos ocasionalmente, desde que não dominem a dieta diária.
Aplicando esses critérios, a própria lista da consumidora revelou que, embora contenha cereais adoçados e nuggets de frango, também inclui frutas frescas, legumes, grãos integrais e fontes de proteína magra. Essa variedade compensa os itens menos saudáveis.
Outro ponto relevante é que, no Reino Unido, os ingredientes de produtos industrializados são rigorosamente testados e aprovados pelas autoridades alimentares. Isso significa que, embora alguns nomes pareçam “químicos”, eles são seguros dentro dos limites estabelecidos.
Por exemplo, os nuggets de frango podem conter vitaminas e minerais adicionados por exigência legal, como ferro e ácido fólico, que contribuem para o valor nutricional do alimento.
Entretanto, a moderação continua sendo a chave. Consumir nuggets duas vezes por semana, combinados com uma porção generosa de vegetais e uma fonte de carboidrato complexo, mantém o equilíbrio calórico e nutricional.
Para quem ainda sente insegurança ao escolher produtos nas prateleiras, Hanan sugere uma estratégia prática: ler o rótulo de trás para frente, começando pelos ingredientes principais e avaliando a presença de aditivos críticos. Se o primeiro ingrediente for um açúcar ou um óleo refinado, o produto provavelmente oferece pouco valor nutricional.
Além disso, priorizar alimentos com listas curtas de ingredientes – preferencialmente reconhecíveis e não industrializados – ajuda a reduzir a ingestão de componentes desnecessários.
Em resumo, a mensagem central é que a alimentação saudável não exige a eliminação total de alimentos ultraprocessados, mas sim a compreensão de seu papel dentro de um padrão alimentar diversificado e equilibrado.
Ao adotar uma postura informada, o consumidor pode fazer escolhas conscientes, evitar o pânico e garantir que seu carrinho de compras contribua para a saúde a longo prazo.








