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Entenda por que avaliar só os ovários pode atrasar o diagnóstico da síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP)

A mudança de nomenclatura da síndrome dos ovários policísticos (SOP) para síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP) foi anunciada em junho de 2024 na revista The Lancet, durante um consenso internacional que contou com a participação de 56 organizações de saúde, inclusive a SBEM. A proposta visa ampliar a visão clínica, passando de um foco apenas anatômico para uma abordagem sistêmica que inclui aspectos hormonais, metabólicos e cardiovasculares.

Por que o nome antigo limitava o diagnóstico

O termo “síndrome dos ovários policísticos” sugeria que o problema se restringia aos ovários, reforçando a ideia de que os folículos vistos no ultrassom seriam cistos reais. Essa percepção equivocada levou a duas consequências graves: primeiro, o diagnóstico precoce foi comprometido; segundo, o tratamento ficou restrito a intervenções ginecológicas, ignorando riscos metabólicos e cardiovasculares que afetam a maioria das pacientes.

Segundo a endocrinologista Poli Mara Spritzer, representante da SBEM no consenso, “a denominação inadequada pode atrasar o rastreio de riscos cardiometabólicos, que são significativamente mais elevados nas mulheres com SOMP”. Essa afirmação se sustenta em estudos que apontam um subdiagnóstico de até 70% dos casos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Diagnóstico integral: além do ultrassom

O exame de imagem ainda tem importância, mas não pode ser o ponto central da avaliação. Um diagnóstico completo deve considerar:

  • Irregularidade menstrual
  • Sinais de hiperandrogenismo, como acne, hirsutismo e queda de cabelo
  • Alterações metabólicas: resistência à insulina, glicemia elevada, dislipidemia e hipertensão
  • Histórico familiar de diabetes ou doenças cardiovasculares

Esses critérios ajudam a identificar a síndrome mesmo quando os folículos não são visíveis no ultrassom. Um estudo de 2025 publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, que analisou dados dos EUA, Reino Unido e Coreia do Sul, mostrou que muitas mulheres com sintomas claros deixavam a consulta sem diagnóstico definitivo por causa da ênfase excessiva nos ovários.

Além disso, o acompanhamento deve se estender à pós‑menopausa. Como destaca a ginecologista Marta Finotti, do Hospital Israelita Albert Einstein em Goiânia, “o risco metabólico persiste; essas pacientes precisam ser monitoradas quanto à resistência à insulina, diabetes tipo 2, dislipidemia, hipertensão e risco cardiovascular, independentemente da fase reprodutiva”.

Impacto emocional e social da nomenclatura equivocada

Quando o termo “cisto” é associado aos ovários, muitas pacientes desenvolvem medo e culpa, acreditando que podem precisar de cirurgia. Uma pesquisa internacional publicada na eClinical Medicine em 2025, com 7.708 participantes, revelou que a maioria dos profissionais de saúde e pacientes ainda confunde folículos pequenos com cistos ou tumores.

No consultório, Finotti relata que “muitas pacientes chegam dizendo que têm cistos nos ovários e associam isso imediatamente a algo tumoral ou cirúrgico”. Essa percepção errônea gera ansiedade desnecessária e pode impedir que a mulher busque tratamento adequado para os componentes metabólicos da síndrome.

Ao adotar o termo SOMP, a comunidade médica pretende desmistificar a condição, enfatizando que se trata de um distúrbio sistêmico que requer uma abordagem multidisciplinar envolvendo endocrinologistas, cardiologistas, nutricionistas e psicólogos.

O que muda na prática clínica

Com a nova nomenclatura, as diretrizes clínicas passam a recomendar:

  • Triagem metabólica completa em todas as mulheres suspeitas de SOMP, independentemente do resultado do ultrassom;
  • Uso de marcadores hormonais (andrógenos, SHBG, insulina) para confirmar o diagnóstico;
  • Planejamento de tratamento que combine controle menstrual, manejo da resistência à insulina (metformina ou inibidores de SGLT2) e intervenções de estilo de vida (dieta, exercício físico);
  • Monitoramento longitudinal do risco cardiovascular, com avaliação de pressão arterial, perfil lipídico e exames de imagem cardiovascular quando indicado.

Essas mudanças visam reduzir a taxa de subdiagnóstico, melhorar a qualidade de vida das pacientes e prevenir complicações graves, como diabetes tipo 2 e eventos cardiovasculares.

Em resumo, a troca de nome representa mais que uma questão semântica; ela reflete uma evolução no entendimento científico da síndrome, promovendo um cuidado integral que considera o corpo como um todo. Mulheres, profissionais de saúde e gestores de políticas públicas são convidados a adotar essa nova perspectiva para garantir diagnósticos precoces, tratamentos eficazes e, sobretudo, um futuro mais saudável para as mais de 170 milhões de mulheres afetadas globalmente.

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