O governo da Albânia anunciou, em junho de 2024, a intenção de criar um microestado soberano dedicado à ordem religiosa Bektashi, localizado no coração da capital, Tirana. A proposta, apresentada pelo primeiro‑ministro Edi Rama, prevê um território de apenas 27 hectares, menor que o Vaticano. O projeto já gera intenso debate sobre religião, soberania e estratégias de soft power.
A proposta do governo albanês
A iniciativa surge em um contexto em que a Albânia busca reforçar sua identidade multicultural e atrair atenção internacional. Historicamente, o país foi o único Estado oficialmente ateísta, mas hoje abriga diversas comunidades religiosas, entre elas a Bektashi, que representa cerca de quatro por cento da população segundo o censo de 2021.
A ordem Bektashi, ramo do sufismo islâmico, tem uma interpretação liberal do islamismo, valorizando o misticismo e o diálogo inter‑religioso. Seus fiéis defendem a tolerância, a igualdade de gênero e a convivência pacífica com outras crenças. Essa filosofia tem atraído jovens e intelectuais, tornando‑a um símbolo de modernidade dentro do panorama religioso albanês.
Segundo o plano oficial, o futuro Estado Bektashi seria reconhecido como entidade soberana, com sua própria bandeira, moeda simbólica e representação diplomática limitada. O território escolhido corresponde ao complexo da sede mundial da ordem, situado no leste de Tirana, já cercado por edifícios administrativos e centros culturais.
A dimensão proposta — 27 hectares — equivale a aproximadamente 0,027 km², o que o tornaria o menor país do mundo, superando o Vaticano, que possui 44 hectares. Essa característica única foi destacada como um ponto de marketing internacional, capaz de colocar a Albânia nos holofotes globais.
Características do Estado Bektashi
A seguir, os principais elementos da proposta:
- Território de 27 hectares
- Autonomia política limitada
- Reconhecimento diplomático parcial
- Benefícios fiscais para a comunidade Bektashi
- Potencial turismo religioso
A autonomia política limitada significa que o microestado não terá poder legislativo completo, permanecendo sob a supervisão do governo albanês. No entanto, contará com um conselho interno responsável por questões culturais, educacionais e de gestão de patrimônios.
O reconhecimento diplomático parcial prevê que alguns países, especialmente aqueles com tradição sufi ou interesse em questões de liberdade religiosa, assinem acordos de cooperação. Ainda não há definição clara sobre a participação do microestado em organizações internacionais.
Do ponto de vista econômico, o projeto promete atrair turistas interessados em espiritualidade e história sufista. A expectativa é que o fluxo de visitantes gere receita para a comunidade local e para o Estado albanês, além de criar empregos nas áreas de hotelaria e guias.
Implicações políticas e religiosas
Entretanto, críticos apontam que a criação de um microestado pode ser vista como uma manobra de soft power, destinada a melhorar a imagem da Albânia no cenário internacional. Alguns analistas sugerem que o governo busca compensar a diminuição de apoio financeiro da União Europeia, diversificando suas fontes de renda.
Outros opositores questionam a constitucionalidade da medida, argumentando que a Constituição albanesa garante a indivisibilidade do território nacional. Advogados especializados pedem que o parlamento promulgue emendas específicas antes de avançar com a iniciativa.
A população geral parece dividida. Enquanto os bektashis celebram a oportunidade de ter um espaço dedicado à sua fé, grande parte dos albaneses expressa ceticismo quanto à viabilidade prática do projeto. Pesquisas informais indicam que cerca de 60% dos entrevistados consideram a ideia ousada, mas poucos acreditam que será concretizada em curto prazo.
Desafios e perspectivas
No cenário internacional, a proposta já despertou curiosidade em países como Turquia, Paquistão e Emirados Árabes Unidos, que mantêm laços históricos com o sufismo. Representantes desses países solicitaram reuniões para discutir possíveis parcerias culturais e educativas.
Em suma, a iniciativa albanesa representa um experimento singular de soberania religiosa no século XXI. Seja como ferramenta de diplomacia cultural ou como expressão da identidade Bektashi, o microestado de 27 hectares tem o potencial de redefinir conceitos tradicionais de Estado‑nação.








