Em janeiro de 2023, o senador Flávio Bolsonaro (PL) desembarcou no Brasil a bordo de um jato privado administrado pela empresa de Daniel Vorcaro, acompanhado da família e do advogado Willer Tomaz. A viagem, que ocorreu entre os Estados Unidos e o Brasil, ganhou destaque nacional após a divulgação de que Tomaz é investigado pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto. O caso reacendeu debates sobre possíveis ligações entre políticos, empresários e esquemas de lavagem de dinheiro.
Quem é Willer Tomaz e qual o seu envolvimento nas investigações
Willer Tomaz é sócio de empresas que atuam no setor de aviação e possui participação em empreendimentos imobiliários. Ele foi apontado pela Polícia Federal como figura central na estrutura de apoio financeiro ao senador Weverton Rocha (PDT‑MA), alvo da Operação Sem Desconto. A PF descreve Tomaz como um elo que conecta recursos suspeitos a imóveis, aeronaves e outras empresas de fachada.
Em 2017, Tomaz chegou a ser preso sob suspeita de interferir nas investigações da Operação Greenfield, que tratava de fraudes em fundos de pensão. Apesar da prisão, ele nunca foi condenado e continuou atuando como advogado e empresário. Atualmente, ele nega qualquer envolvimento em irregularidades no INSS e afirma que as investigações se limitam à propriedade de um imóvel que, segundo a PF, poderia pertencer a um parlamentar.
Detalhes da viagem e a ligação com a empresa de Vorcaro
A viagem de Flávio Bolsonaro foi realizada em um jato que, segundo documentos, seria administrado por uma empresa controlada pelo banqueiro Daniel Vorcaro. O senador viajou acompanhado de sua esposa, filhos e do advogado Willer Tomaz, que teria sido o responsável pela organização da logística da viagem. A PF destacou que a aeronave era de propriedade de terceiros, mas que a gestão ficava a cargo da empresa de Vorcaro.
Will Tomaz, em nota oficial, declarou que não conhece Daniel Vorcaro e que nunca celebrou nenhum negócio com ele. Ele ainda afirmou que a venda da cota de terceiro à empresa Prime You ocorreu sem o seu conhecimento e que, ao tomar ciência do contrato em abril de 2026, imediatamente o denunciou, entrando em litígio com a Prime You.
- Data da viagem: janeiro de 2023
- Origem: Estados Unidos
- Destino: Brasil
- Aeronave: jato privado administrado por empresa vinculada a Daniel Vorcaro
O fato de Tomaz ter participado da viagem, apesar de ser investigado, levantou suspeitas sobre a natureza das relações entre políticos e empresários do setor financeiro. Especialistas em direito eleitoral apontam que a presença de um advogado sob investigação pode indicar tentativas de blindar a imagem do senador diante da opinião pública.
Operação Sem Desconto: o que está em jogo
A Operação Sem Desconto foi deflagrada em 23 de abril de 2025 pela Polícia Federal e pela Controladoria‑Geral da União (CGU). O objetivo da investigação é desarticular um esquema de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS, que teria movimentado bilhões de reais. A operação tem como foco principal a lavagem de recursos provenientes de aposentados e pensionistas, que seriam ocultados por meio de compra de imóveis, empresas de fachada e, possivelmente, aeronaves.
Segundo a PF, a conta pessoal da esposa do senador Weverton Rocha, Samya, foi utilizada como canal alternativo para receber mais de R$ 11 milhões de empresas ligadas a Willer Tomaz em 2024. A investigação também apontou que um imóvel adquirido por R$ 6 milhões em abril de 2023 foi registrado em nome de uma empresa controlada por Tomaz, levantando a hipótese de que o bem poderia pertencer ao parlamentar.
A estratégia de ocultação descrita pelos investigadores inclui a compra de propriedades de alto valor, a utilização de empresas de fachada para movimentar recursos e a transferência de bens para terceiros de confiança. Essa rede de apoio financeiro, segundo a PF, teria sido mantida por Tomaz como parte de uma estrutura de sustentação patrimonial para o senador Rocha.
Em resposta às acusações, Willer Tomaz afirmou que a apuração refere‑se apenas à propriedade do imóvel e que não há indícios de sua participação em fraudes no INSS. Ele reforçou que nunca foi investigado por irregularidades relacionadas ao instituto e que a sua única ligação com a operação seria a suposta posse do bem.
Repercussões políticas e jurídicas
A divulgação da viagem e das investigações gerou forte repercussão no Congresso Nacional. A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da JBS convocou Tomaz para prestar depoimento e analisar requerimentos de investigação. A presença do advogado em audiência será decisiva para esclarecer o grau de envolvimento dele nas supostas irregularidades.
Além disso, o caso trouxe à tona discussões sobre a necessidade de maior transparência nas viagens de políticos e no uso de aeronaves privadas. Organizações da sociedade civil têm cobrado que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) imponha regras mais rígidas para a prestação de contas de gastos com transporte aéreo, especialmente quando há indícios de conflitos de interesse.
Especialistas em direito penal afirmam que, caso a investigação confirme a participação de Tomaz em esquema de lavagem de dinheiro, ele poderá responder por crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e improbidade administrativa. As penas previstas variam de quatro a oito anos de prisão, além de multas e perda de bens.
Para Flávio Bolsonaro, o episódio representa um desafio adicional em sua campanha presidencial. O senador tem buscado distanciar-se das acusações, enfatizando que a viagem foi feita por motivos familiares e que não há relação entre ele e as investigações da PF. No entanto, a mídia tem mantido o foco nas possíveis ligações entre o candidato, o advogado investigado e o empresário Vorcaro.
O cenário político brasileiro permanece volátil, e a Operação Sem Desconto pode desencadear novas investigações que envolvam outros parlamentares e empresários. A expectativa é de que o processo judicial siga seu curso, com a possibilidade de novos desdobramentos nas próximas semanas.








