O ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, autorizou nesta quinta‑feira, 24 de setembro de 2026, a abertura de um inquérito policial pela Polícia Federal para apurar suposta omissão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no chamado Caso Master.
A decisão foi tomada em sessão pública no STF, após a apresentação de um relatório da própria CVM que apontava falhas no tratamento de denúncias e dados relativos ao conglomerado financeiro investigado.
O caso, que envolve grandes bancos e fundos de investimento, tem despertado intensa atenção de reguladores, investidores e da imprensa.
Contexto do Caso Master
O Caso Master teve início em fevereiro de 2022, quando o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) enviou à CVM uma comunicação formal denunciando irregularidades em operações de crédito realizadas por um conjunto de instituições financeiras interligadas.
A denúncia continha indícios detalhados de práticas que poderiam violar normas de transparência, controle de risco e proteção ao investidor.
Apesar da gravidade dos indícios, a CVM arquivou o processo pouco tempo depois, alegando falta de elementos suficientes para prosseguimento.
Decisão de Flávio Dino e suas bases jurídicas
Na decisão, o ministro Flávio Dino destacou que a omissão da autarquia reguladora pode configurar violação de deveres institucionais previstos na Lei nº 6.385/1976, que regula o mercado de capitais.
Ele ressaltou que a Constituição Federal garante o direito à ampla defesa e ao contraditório, mas também impõe ao Estado o dever de fiscalizar e coibir condutas que ameacem a estabilidade do sistema financeiro.
Com base nesses princípios, Dino determinou que a Polícia Federal investigue, entre outros pontos, a cadeia de comunicação entre o FGC, a CVM e as instituições denunciadas.
Foco da investigação da Polícia Federal
A PF concentrará seus esforços em três frentes principais: a análise dos documentos internos da CVM relativos ao arquivamento, a verificação de possíveis pressões externas sobre os reguladores e a identificação de eventuais beneficiários das supostas irregularidades.
- Revisão dos pareceres técnicos emitidos pela CVM em 2022.
- Mapeamento de contatos entre executivos da CVM e representantes das instituições financeiras investigadas.
- Auditoria dos fluxos de informação entre o FGC e a CVM durante o período de denúncia.
Essas etapas visam construir um panorama claro sobre se houve falha deliberada, negligência ou mera interpretação equivocada das normas.
Além disso, a investigação buscará saber se outros órgãos de controle, como o Banco Central, foram informados e, em caso afirmativo, como reagiram.
Repercussões no mercado financeiro
O anúncio da investigação gerou volatilidade nas bolsas brasileiras, com queda de cerca de 1,2 % nos principais índices ao longo do dia.
Analistas apontam que a incerteza sobre a atuação da CVM pode afetar a confiança de investidores estrangeiros, que monitoram a robustez dos mecanismos de supervisão.
Por outro lado, especialistas em compliance veem a medida como um reforço da necessidade de transparência e de processos internos mais rigorosos nas instituições reguladoras.
Alguns fundos de investimento já ajustaram suas estratégias, reduzindo a exposição a ativos ligados ao conglomerado investigado até que haja maior clareza sobre os desdobramentos.
Próximos passos e expectativas
Espera‑se que a Polícia Federal abra oficialmente o inquérito nas próximas semanas, definindo prazos para a coleta de provas e o depoimento de autoridades da CVM.
O Ministério Público Federal (MPF) também deve acompanhar o caso, podendo apresentar recomendações ou mesmo ajuizar ação civil pública caso sejam identificadas irregularidades graves.
Enquanto isso, a CVM afirmou que cooperará integralmente com as investigações e que revisará seus procedimentos internos para evitar novos questionamentos.
O desfecho do caso poderá levar a mudanças regulatórias, como a criação de protocolos mais rígidos para o tratamento de denúncias e a ampliação da transparência nos processos de arquivamento.
Em síntese, a decisão de Flávio Dino coloca em foco a importância da governança no mercado de capitais brasileiro e reforça o papel dos órgãos de controle como guardiões da integridade financeira.








