O vice‑presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, também prefeito de Maricá, manifestou nesta quinta‑feira (10) insatisfação com a condução da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva no estado do Rio de Janeiro. A queixa refere‑se à ausência de diálogo entre as coordenações estadual e nacional e à percepção de que a estratégia atual seria “mais do mesmo”. O discurso foi registrado em entrevista concedida à revista VEJA, logo após o político anunciar um período de recuperação de 30 dias devido a uma cirurgia ocular.
Desentendimentos entre coordenações estadual e nacional
Washington Quaquá, coordenador da campanha estadual, explicou que a falta de interlocução tem dificultado a definição de prioridades locais. Segundo ele, a equipe nacional, liderada por Edinho Silva, não tem incorporado sugestões vindas dos municípios, o que gera sensação de exclusão entre os dirigentes regionais.
Para o vice‑presidente, a desconexão pode comprometer a eficácia da mensagem eleitoral, sobretudo em um estado que historicamente tem sido decisivo nas eleições presidenciais. Ele ressaltou que o eleitorado do Rio exige propostas concretas e adaptações às especificidades de cada região, algo que ele acredita estar sendo negligenciado.
Além disso, Quaquá apontou que a falta de um canal de comunicação formal tem provocado atrasos na aprovação de materiais de campanha, como vídeos, panfletos e anúncios de rádio. Essa morosidade, segundo ele, pode prejudicar a capacidade de resposta rápida diante de ataques de adversários políticos.
Críticas ao evento cultural programado
Um dos episódios que mais gerou controvérsia foi a organização de um grande show na Fundição Progresso, previsto para a próxima semana, com a participação de nomes da música popular brasileira como Chico Buarque, Caetano Veloso e Maria Bethânia. Quaquá reconheceu a importância cultural dos artistas, mas classificou o evento como “pregar para convertido”.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, o vice‑presidente afirmou que a iniciativa parece mais um espetáculo de entretenimento do que uma ferramenta de mobilização política. Ele argumentou que, diante de um cenário eleitoral apertado, a campanha deveria direcionar recursos para ações de base, como visitas a comunidades e encontros com lideranças locais.
O coordenador ainda listou os principais pontos que, em sua visão, precisam ser revistos:
- Definir objetivos claros para o evento, alinhando música e mensagem política;
- Garantir que a logística não sobrecarregue a equipe de campanha;
- Utilizar a transmissão ao vivo como ferramenta de engajamento digital;
- Evitar a percepção de que a campanha depende de figuras artísticas para atrair eleitores.
Essas sugestões foram apresentadas como forma de transformar o show em um verdadeiro momento de convencimento, ao invés de um simples entretenimento.
Consequências da cirurgia ocular e o plano de 30 dias
Na mesma entrevista, Quaquá revelou que passou por uma cirurgia nos olhos na última quinta‑feira, procedimento que o deixará afastado das atividades de campo por cerca de um mês. Apesar da pausa, ele afirmou que usará esse período para refletir sobre “estratégias, projetos e metas” da campanha estadual.
Ele destacou que a ausência temporária não significa abandono da causa, mas sim uma oportunidade de analisar criticamente as decisões tomadas até agora. O vice‑presidente prometeu, ao retornar, apresentar um plano de ação revisado, que incluirá maior integração com a coordenação nacional.
Entretanto, a indefinição sobre quem assumirá a liderança da campanha no estado durante sua recuperação gerou preocupação entre os militantes locais. Alguns dirigentes sugeriram que a equipe de comunicação estadual poderia assumir temporariamente as funções estratégicas, enquanto outros pediram que Edinho Silva delegasse um representante direto ao Rio.
Perspectivas para o primeiro turno das eleições
Com as eleições de outubro se aproximando, a campanha de Lula no Rio de Janeiro enfrenta um cronograma apertado. A falta de alinhamento entre as esferas estadual e nacional pode se tornar um ponto vulnerável diante dos adversários, que já intensificam suas estratégias de ataque.
Especialistas em ciência política alertam que a coesão interna é um fator decisivo para a vitória em estados com alto número de eleitores indecisos. Eles recomendam que o PT estabeleça um comitê de crise que inclua representantes de ambas as coordenações, a fim de garantir respostas rápidas e coordenadas.
Por outro lado, o apoio popular a Lula ainda se mantém elevado nas pesquisas estaduais, embora haja sinais de desgaste entre eleitores mais jovens que demandam propostas inovadoras em áreas como tecnologia, meio ambiente e inclusão social.
Em síntese, a queixa do vice‑presidente do PT evidencia tensões que precisam ser resolvidas antes do início da campanha intensiva para o primeiro turno. O sucesso da estratégia dependerá da capacidade de integrar as vozes locais ao plano nacional, de transformar eventos culturais em oportunidades de convencimento e de superar os desafios pessoais impostos pela cirurgia ocular.








