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Como a vacinação da gestante cria um escudo imunológico para o bebê antes do parto

Em 2024, o Brasil registrou um aumento alarmante de casos de coqueluche e bronquiolite em recém‑nascidos, revelando a importância da imunização materna. A partir da 28ª semana de gestação, vacinas específicas são aplicadas para que os anticorpos da mãe atravessem a placenta e protejam o bebê nos primeiros meses de vida.

O caminho dos anticorpos da mãe para o filho

Durante a gestação, o organismo materno continua a produzir imunoglobulinas, mas apenas a IgG tem tamanho suficiente para cruzar a barreira placentária. Essa imunoglobulina carrega a memória imunológica adquirida ao longo da vida da mulher, seja por infecções naturais ou por vacinação.

A IgM, embora seja a primeira linha de defesa contra um novo invasor, é grande demais para passar para o feto, permanecendo apenas no sangue da mãe. Já a IgG, refinada e específica, chega ao bebê e permanece em circulação por até seis meses após o nascimento, oferecendo proteção passiva.

Vacinas que fazem a diferença

O Programa Nacional de Imunizações (PNI) inclui, entre as vacinas recomendadas para gestantes, a da coqueluche (Tdap) e, mais recentemente, a do vírus sincicial respiratório (VSR). Ambas são administradas a partir da 28ª semana, período em que a placenta está mais eficiente na transferência de IgG.

Os resultados são evidentes: a cobertura da vacina contra o VSR chegou a 85% entre as gestantes, contribuindo para a redução de casos graves de bronquiolite nos primeiros meses de vida. Ao mesmo tempo, a vacinação contra a coqueluche tem mantido a taxa de mortalidade infantil por essa doença em patamares historicamente baixos.

  • Coqueluche: protege contra tosse convulsa que pode ser fatal em bebês.
  • VSR: diminui risco de hospitalização por bronquiolite grave.
  • Gripe: reforça a imunidade materna e, indiretamente, a do recém‑nascido.

Desafios ainda presentes

Apesar do sucesso nas vacinas de coqueluche e VSR, a adesão à vacina contra a covid‑19 entre gestantes permanece baixa. Especialistas apontam a desinformação e o receio de efeitos colaterais como principais barreiras.

Renato Kfouri, da Sociedade Brasileira de Imunizações, destaca que a baixa cobertura da vacina contra a covid‑19 pode comprometer a proteção coletiva, já que o vírus ainda circula amplamente e pode gerar complicações graves em gestantes e neonatos.

Além disso, a pandemia de covid‑19 interferiu na rotina de vacinação infantil, reduzindo a cobertura de vacinas de rotina entre 2020 e 2022, o que pode explicar o ressurgimento de doenças que já estavam sob controle.

Impactos reais na saúde infantil

Em 2024, 29 crianças menores de um ano morreram de coqueluche no Brasil, sendo 24 delas filhas de mães que não haviam recebido a vacina Tdap durante a gestação. Esse dado reforça a necessidade de campanhas de conscientização direcionadas às gestantes.

Já a bronquiolite grave, causada principalmente pelo VSR, foi responsável por 537 óbitos em bebês de até 12 meses no mesmo ano. A introdução da vacina contra o VSR no SUS, em dezembro de 2025, já demonstra efeito positivo na diminuição desses números.

Estudos apontam que a presença de anticorpos maternos reduz a gravidade dos sintomas, diminui a necessidade de internação em unidades de terapia intensiva e, consequentemente, alivia a carga sobre o sistema de saúde.

Outro ponto relevante é o efeito cascata: ao vacinar a gestante contra a coqueluche e o VSR, há um aumento na procura por outras vacinas, como a da gripe, ampliando a proteção coletiva.

Como garantir a proteção do bebê antes do parto

Para que a transferência de anticorpos seja eficaz, é fundamental que a gestante siga o calendário recomendado pelo Ministério da Saúde. A dose única de Tdap deve ser aplicada entre a 27ª e a 36ª semana de gestação, enquanto a vacina contra o VSR pode ser administrada a partir da 28ª semana.

Além da vacinação, hábitos saudáveis – alimentação balanceada, controle de comorbidades e acompanhamento pré‑natal regular – potencializam a resposta imunológica da mãe, garantindo que a quantidade e a qualidade dos anticorpos sejam adequadas.

Profissionais de saúde desempenham um papel crucial na orientação das gestantes, esclarecendo dúvidas e combatendo mitos que ainda circulam sobre a segurança das vacinas durante a gravidez.

Em síntese, a imunização materna representa uma estratégia preventiva poderosa, que protege não apenas a mãe, mas também o bebê desde o útero, reduzindo drasticamente a incidência de doenças graves nos primeiros meses de vida.

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