Lídia Costa, diagnosticada em 1967 como a primeira criança do mundo com miastenia, completa 65 anos e continua atuando como presidente da associação de pacientes que ela mesma fundou. O diagnóstico foi feito em São Paulo, quando a menina tinha apenas seis anos, e a história se tornou marco para a medicina neuromuscular no Brasil.
Diagnóstico pioneiro e trajetória de Lídia Costa
Em 1967, o médico José Lamartine de Assis, conhecido como o pai da miastenia no país, identificou nos sintomas de Lídia um quadro que até então não havia sido reconhecido em crianças. O especialista observou a fraqueza progressiva dos músculos faciais e a queda das pálpebras, sinais típicos da doença, e decidiu investigar além dos protocolos da época.
A família recebeu a notícia de que a expectativa de vida da menina seria curta, com prognóstico de não ultrapassar os vinte anos. Contra todas as previsões, Lídia superou as expectativas, vivendo uma vida plena e, hoje, liderando uma comunidade que antes era invisível.
Ao longo das décadas, Lídia participou de inúmeros congressos nacionais e internacionais, sempre levando consigo a experiência de quem conviveu com a miastenia desde a infância. Seu envolvimento constante ajudou a criar redes de apoio e a divulgar informações essenciais sobre a doença.
Em 1985, junto a outros pacientes e familiares, ela fundou a Associação Brasileira de Miastenia, que hoje conta com mais de mil associados e oferece suporte médico, psicológico e social. A entidade também promove campanhas de conscientização e arrecada fundos para pesquisas.
Diferenças entre miastenia congênita e autoimune
A miastenia pode se manifestar de duas formas distintas: a congênita, que Lídia apresenta, e a autoimune, que ficou conhecida ao público por causa do apresentador Alex Escobar. Embora os sintomas sejam semelhantes, os mecanismos fisiológicos são completamente diferentes.
Na forma autoimune, o sistema imunológico produz anticorpos que atacam a junção neuromuscular, impedindo a acetilcolina de exercer sua função. Esse tipo de miastenia costuma ser tratado com imunossupressores e, em alguns casos, com a remoção do timo, órgão responsável pela maturação dos linfócitos.
Já a miastenia congênita resulta de uma mutação genética que afeta diretamente a estrutura da junção neuromuscular. Não há produção de anticorpos, mas sim um defeito na própria “antena” que recebe o sinal químico do nervo.
Dois indicadores ajudam os médicos a diferenciar as formas:
- Sintomas que surgem antes dos dois anos de idade;
- Histórico familiar de casos semelhantes.
Esses critérios foram observados no caso de Lídia, já que seu irmão mais velho apresentava o mesmo quadro clínico. A presença de ambos os fatores aumentou a suspeita de uma origem genética.
Os exames de condução nervosa e os testes de anticorpos podem ser semelhantes, o que explica a frequência de confusões diagnósticas. Contudo, a raridade da forma congênita demanda uma investigação mais aprofundada e, muitas vezes, testes genéticos específicos.
Impacto na comunidade e legado de Lídia
Hoje, Lídia Costa não é apenas uma paciente, mas uma referência viva para milhares de pessoas que convivem com a miastenia. Sua história inspira pacientes a buscar tratamento adequado e a não desistir diante das adversidades.
A associação que ela lidera oferece, entre outros serviços, orientação sobre medicamentos, fisioterapia especializada e apoio psicológico. Além disso, promove encontros mensais onde pacientes compartilham experiências e fortalecem laços de solidariedade.
Em 2024, Lídia participou de um painel no Congresso Internacional de Neurologia em Berlim, onde destacou a importância de reconhecer a miastenia congênita como entidade distinta. Seu discurso recebeu ampla repercussão nas redes sociais e motivou novas pesquisas em laboratórios brasileiros.
O legado de Lídia também se reflete na formação de novos profissionais de saúde. Muitas universidades incluíram casos de miastenia congênita em seus currículos, graças ao material didático que ela ajudou a produzir.
Apesar dos avanços, ainda há desafios. O acesso a medicamentos de última geração e a terapias genéticas ainda é limitado no país, e Lídia continua lutando para que políticas públicas garantam tratamento adequado a todos os pacientes.
Em entrevista recente, ela afirmou que o maior presente que recebeu ao longo da vida foi a capacidade de transformar sofrimento pessoal em ação coletiva. “Cada sorriso que conseguimos devolver a um paciente vale mais que qualquer prêmio”, declarou.
O futuro da pesquisa em miastenia congênita parece promissor, com ensaios clínicos em fase inicial que buscam corrigir a mutação genética responsável. Lídia acompanha de perto esses estudos, na esperança de que, um dia, a doença possa ser curada ou, ao menos, controlada de forma eficaz.
Enquanto isso, ela mantém sua rotina de viagens entre Brasília, onde a associação tem sua sede, e outros centros médicos do país. Seu compromisso incansável demonstra que a luta contra a miastenia vai muito além de um diagnóstico: é uma missão de vida.








