MC Leozinho ZS, cantor de funk de 26 anos, alcançou a quarta posição nas faixas mais reproduzidas do Brasil no Spotify em julho de 2024, consolidando-se como um dos nomes mais ouvidos do país. A conquista aconteceu enquanto o artista promovia seu álbum “Na Contramão”, lançado em julho deste ano, e tem repercutido em todo o território nacional. Mesmo sendo cego desde os oito meses de idade, ele tem transformado a realidade das periferias em música de grande alcance.
Trajetória e superação pessoal
Leozinho ZS nasceu e cresceu na favela do Capão Redondo, zona sul de São Paulo, e perdeu a visão ainda bebê devido a uma meningite. Apesar da deficiência, ele encontrou no funk uma forma de expressão que o ajudou a superar obstáculos e a construir uma identidade artística única. Iniciou sua carreira há mais de dez anos, quando o gênero ainda era dominado por letras de teor sexual, mas logo percebeu que poderia usar sua voz para narrar histórias diferentes.
Ao longo da primeira década, o artista produziu faixas com conteúdo mais explícito, porém sentiu que aquele caminho não refletia sua realidade. Foi então que migrou para o chamado “funk consciente”, focando em temáticas sociais, de superação e cotidiano da quebrada. Essa mudança de postura rendeu elogios de nomes consagrados, como MC Hariel e Neguinho do Kaxeta, que se tornaram padrinhos e mentores do cantor.
Processo criativo e produção musical
Leozinho ZS trabalha em um home studio montado em sua própria casa, onde controla todas as etapas da produção, da composição à masterização. Ele aprendeu tudo de forma autodidata, sem cursos formais, e hoje utiliza softwares de áudio por meio de comandos de voz, graças aos avanços da tecnologia assistiva. Essa autonomia lhe permite experimentar diferentes sonoridades e manter o controle total sobre sua arte.
Embora ainda goste de gravar suas próprias batidas, ele admite que, nos últimos anos, tem deixado a produção dos beats a cargo de DJs e produtores, contribuindo apenas com ideias e sugestões pontuais. Essa colaboração enriquece o som final e permite que ele se concentre na escrita de letras que reflitam a vida nas favelas.
- Murilo MT – colaborador
- DR – colaborador
- RN do Capão – colaborador
- Pelourinho – colaborador
- JHOW BEATS – produtor
Esses artistas foram escolhidos a dedo por Leozinho, a maioria deles também natural do Capão Redondo, reforçando a ideia de que a música pode ser um projeto coletivo de comunidade.
O álbum “Na Contramão” e a mensagem consciente
O disco “Na Contramão” reúne 12 faixas que contrastam com a tendência do mercado de priorizar ostentação e luxo. A proposta do artista foi oferecer ao público uma alternativa que mescla crítica social e celebração da cultura periférica. Apenas uma das músicas, “Tá Pedindo Toma”, adota um ritmo mais dançante, mas ainda carrega um texto que fala sobre mobilidade e cotidiano, usando o Toyota Corolla como metáfora recorrente.
Nas letras, Leozinho relata histórias que ouve de amigos, de encontros em adegas e de rodas de pagode, transformando relatos cotidianos em versos que ressoam com quem vive a mesma realidade. Ele afirma que ser cego é apenas um detalhe na hora de compor, pois sua percepção do mundo vem dos sons, das conversas e das vivências ao redor.
O título “Na Contramão” simboliza a escolha do artista de seguir um caminho oposto ao que a indústria impõe. Enquanto muitos artistas buscam hits baseados em consumo e ostentação, ele prefere narrativas de superação, de luta e de esperança, reforçando o papel do funk como ferramenta de mudança social.
Impacto nacional e reconhecimento
A música “Tá Pedindo Toma” tornou-se a quarta mais ouvida no Spotify Brasil, consolidando Leozinho ZS como um dos funkeiros mais escutados do país. Essa posição não foi alcançada por estratégias de marketing agressivas, mas sim pela força da conexão emocional que o artista cria com seu público. O sucesso também demonstra que o funk consciente tem espaço nas paradas de streaming.
Além do ranking, o cantor tem sido destaque em programas de televisão, podcasts e entrevistas, onde compartilha sua experiência como artista cego e a importância da representatividade. Ele enfatiza que a tecnologia tem sido aliada essencial, permitindo que ele navegue pelos softwares de produção musical com facilidade.
O reconhecimento trouxe oportunidades de shows em grandes casas de show de São Paulo e em festivais nacionais, ampliando ainda mais a voz da periferia nas mídias mainstream. Cada apresentação reforça a mensagem de que a deficiência não é barreira para o sucesso artístico quando há determinação e apoio da comunidade.
Leozinho ZS continua a trabalhar em novos projetos, prometendo lançar mais faixas que unam ritmo contagiante e conteúdo reflexivo. Seu objetivo é inspirar jovens de comunidades marginalizadas a acreditarem no próprio potencial, mostrando que é possível transformar adversidade em arte de alcance nacional.








