Em julho de 2024, nas movimentadas avenidas comerciais da província de Shandong, China, foram instalados outdoors que exibem rostos de renomados cientistas ao invés de produtos de consumo. A iniciativa, que começou nas cidades de Heze e Zibo, tem como objetivo atrair a atenção de crianças e adolescentes para a pesquisa científica. O projeto se expandiu rapidamente para outras áreas urbanas, incluindo Chongqing, marcando uma nova estratégia de comunicação pública.
A campanha nas cidades de Shandong
Os painéis publicitários apresentam figuras históricas como Qian Xuesen, Deng Jiaxian, Qian Sanqiang e Guo Yonghuai, todos pioneiros em áreas estratégicas da ciência chinesa. Cada imagem ocupa um espaço de destaque, substituindo anúncios de marcas de consumo que antes dominavam o cenário visual. A escolha desses nomes visa conectar o passado científico do país com o futuro das novas gerações.
Além das imagens, os outdoors contêm breves descrições que ressaltam as principais contribuições de cada pesquisador. Por exemplo, Qian Xuesen é lembrado como o “pai” do programa espacial chinês, enquanto Deng Jiaxian liderou o desenvolvimento da primeira bomba atômica nacional. Essa abordagem educacional transforma a rua em uma espécie de museu a céu aberto.
- Qian Xuesen – pioneiro da engenharia aeroespacial e fundador da base de lançamentos de Xichang.
- Deng Jiaxian – arquiteto do programa nuclear e responsável pela primeira explosão atômica da China.
- Qian Sanqiang – físico que colaborou na construção da primeira bomba de hidrogênio.
- Guo Yonghuai – especialista em balística que contribuiu para a tecnologia de mísseis.
Os moradores das cidades relataram curiosidade e entusiasmo ao notar os novos rostos nas vitrines. Muitos pais aproveitaram a oportunidade para conversar com seus filhos sobre a importância da ciência no desenvolvimento nacional. A campanha, portanto, não se limita à propaganda visual, mas também estimula diálogos familiares sobre carreiras técnicas.
Objetivos do governo e a estratégia de Xi Jinping
Em um discurso proferido em julho, o presidente Xi Jinping enfatizou a necessidade de ampliar a formação de pesquisadores e identificar talentos científicos desde a infância. Segundo Xi, escolas e instituições devem criar mecanismos de detecção precoce de aptidão e interesse por áreas como física, química e engenharia. Essa diretriz faz parte de um plano maior de autossuficiência tecnológica que visa reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras.
O governo vinculou a campanha de outdoors a metas concretas, como o aumento de 20% no número de estudantes matriculados em cursos de ciência e tecnologia até 2030. Além disso, foram anunciadas bolsas de estudo e programas de mentoria que conectam jovens com laboratórios universitários. Essas medidas reforçam a mensagem visual de que a ciência é um caminho viável e valorizado na sociedade chinesa.
Especialistas em políticas públicas apontam que a estratégia combina elementos de propaganda tradicional com iniciativas de educação informal. Ao ocupar espaços de consumo, o Estado cria uma associação positiva entre ciência e sucesso econômico. Essa tática busca, ainda, contrabalançar a crescente influência de influenciadores digitais que promovem conteúdos de baixa qualidade científica.
A presença dos cientistas nas mídias digitais e o controle de conteúdo
A Administração do Ciberespaço da China lançou diretrizes que exigem verificação de credenciais de apresentadores que se autodenominam especialistas em finanças, saúde, educação e direito. A medida inclui a proibição de divulgação de ciência falsa para vender produtos ou cursos online. Assim, o governo tenta garantir que o conteúdo científico que circula nas plataformas digitais seja confiável e alinhado às políticas nacionais.
Para os menores de idade, foram estabelecidos limites de uso no modo infantil dos dispositivos: até uma hora diária para crianças abaixo de 16 anos e até duas horas para adolescentes de 16 e 17 anos. Os pais podem ajustar esses parâmetros, mas a recomendação oficial incentiva que aplicativos ofereçam conteúdo adequado a cada faixa etária, incluindo programas de divulgação científica.
Essas regras digitais complementam a campanha física dos outdoors, criando um ecossistema de estímulo à ciência que atravessa tanto o espaço urbano quanto o virtual. Plataformas como Douyin e Bilibili foram instruídas a priorizar vídeos educativos produzidos por instituições reconhecidas. A combinação de presença física e controle de conteúdo digital reforça a mensagem de que a ciência deve ser vista como um pilar central da cultura nacional.
Impactos esperados nos jovens e desafios futuros
Os organizadores acreditam que a exposição diária a figuras como Qian Xuesen pode despertar o interesse de crianças que, de outra forma, veriam apenas anúncios de produtos de consumo. Estudos preliminares indicam que estudantes que reconhecem esses nomes tendem a considerar carreiras em áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) com maior frequência. A esperança é que, ao longo dos próximos anos, esse efeito se traduza em maior número de inscrições em cursos universitários de ciência.
No entanto, especialistas alertam para desafios como a necessidade de melhorar a qualidade do ensino nas escolas públicas e garantir que laboratórios estejam equipados para receber um aumento de estudantes. Além disso, o controle rigoroso de conteúdo digital pode ser percebido como censura por parte de alguns jovens, gerando resistência ou desconfiança.
Para superar esses obstáculos, o governo tem investido em parcerias público‑privadas que financiam projetos de laboratórios escolares e programas de estágio em empresas de alta tecnologia. A estratégia inclui ainda a criação de concursos nacionais de ciência, onde projetos de estudantes são avaliados por comitês de pesquisadores renomados. Essas iniciativas pretendem transformar o entusiasmo gerado pelos outdoors em oportunidades concretas de aprendizado e desenvolvimento profissional.
Em síntese, a campanha de outdoors representa mais do que uma simples troca de imagens publicitárias; ela simboliza a ambição da China de posicionar a ciência como valor central da identidade nacional. Se bem-sucedida, a medida poderá inspirar uma nova geração de inovadores capazes de impulsionar o país rumo à liderança tecnológica global.








