Um estudo divulgado em setembro de 2026 revelou que deepfakes foram amplamente empregados por políticos e partidos durante a pré-campanha eleitoral. Entre 1º de janeiro e 15 de agosto, foram identificados 413 conteúdos sintéticos que circularam nas redes sociais, muitos sem a devida sinalização de uso de IA.
Escala e características dos conteúdos falsos
Os materiais analisados mostraram que 63% não continham avisos de que foram criados por inteligência artificial, violando as normas estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Além disso, 40% continham informações falsas, o que caracteriza desinformação grave.
Do total de publicações, 64% foram críticas ou ataques a adversários, enquanto 34% consistiam em endossos a candidatos ou causas. Mais da metade (60%) adotou um tom jocoso, recorrendo à sátira para diminuir a credibilidade dos alvos.
Quem está por trás das deepfakes?
Os políticos responderam por 35% das postagens, um aumento de mais de três vezes em relação ao segundo semestre de 2025. O senador Flávio Bolsonaro e o deputado Mário Frias foram apontados como os maiores usuários da tecnologia, usando-a para se comunicar diretamente com eleitores.
Entretanto, a maioria dos conteúdos foi produzida por usuários anônimos que criaram perfis falsos com o objetivo de gerar engajamento e espalhar desinformação.
- Flávio Bolsonaro – 57 casos
- Mário Frias – destaque nas publicações
- Partido Liberal (PL) – líder no uso de deepfakes para campanha
Alvos principais e formatos mais usados
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o principal alvo, com 112 deepfakes que manipulavam sua imagem ou voz, representando mais de 25% do total. Outros políticos afetados incluíram o ex-presidente Jair Bolsonaro (38 casos) e o deputado Nikolas Ferreira (10 casos).
Ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes (13 casos) e Dias Toffoli (5 casos), também foram vítimas, assim como primeiras-damas Janja da Silva (5) e Michelle Bolsonaro (4).
Os formatos predominantes foram vídeos, seguidos por imagens e áudios. O áudio foi apontado como o mais preocupante devido ao alto potencial de desinformação e à dificuldade de verificação.
Regulamentação do TSE e implicações futuras
O TSE já impôs a obrigação de informar, de forma explícita e destacada, quando um conteúdo for fabricado ou manipulado por IA. A corte também proibiu o uso de deepfakes que apresentem grau de realismo ou verossimilhança para promover ou prejudicar candidatos.
Após a exibição de um avatar do ex‑presidente Jair Bolsonaro na convenção do PL, o tribunal reforçou a proibição, determinando que tais recursos não podem integrar propaganda eleitoral.
Especialistas alertam que, embora nem todas as deepfakes tenham intenção desinformativa, seu uso crescente pode interferir no debate público e influenciar a decisão dos eleitores.
Avatares políticos gerados por IA
O Observatório IA nas Eleições identificou 15 avatares criados por inteligência artificial para comentar política no Brasil em 2026, somando-se aos 14 encontrados em 2025, totalizando 29 perfis fictícios hiper‑realistas.
Esses avatares foram programados para expressar opiniões sobre candidatos, partidos e temas de interesse público, muitas vezes sem a devida transparência sobre sua origem artificial.
Um dos perfis mais populares, “Dona Maria”, foi removido das plataformas, mas seu caso demonstra o potencial de manipulação que esses personagens podem exercer.
Desafios para a checagem e a cidadania digital
A difusão de deepfakes impõe desafios significativos para verificadores de fatos, que precisam desenvolver novas ferramentas capazes de analisar áudio e vídeo em alta velocidade.
Organizações da sociedade civil recomendam que os usuários adotem uma postura crítica, verificando a procedência das informações antes de compartilhá‑las.
Ao mesmo tempo, legisladores e reguladores são pressionados a atualizar as normas eleitorais, de modo a acompanhar a rápida evolução das tecnologias de geração de conteúdo sintético.
O debate sobre a regulação das deepfakes ainda está em estágio inicial, mas a tendência indica que a pressão por maior transparência e responsabilidade nas redes sociais deve se intensificar nos próximos anos.








