Na segunda‑feira, 14 de outubro, o ministro da Cultura de Israel, Miki Zohar, anunciou no X (antigo Twitter) que pretende revogar a cidadania dos cineastas Yuval Abraham e Rachel Szor. A medida vem após a dupla receber o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema de Veneza por um documentário que denuncia supostos crimes em Gaza.
Contexto da decisão do ministro
Zohar descreveu a vitória do filme como “chocante” e qualificou a obra de “desprezível”. Em sua postagem, o ministro acusou os realizadores de trair a pátria e de buscar aplausos de grupos antissemitas ao redor do mundo.
Ele afirmou ainda que vai “agir imediatamente” para retirar a cidadania israelense dos dois autores, chamando‑os de “desprezíveis por traição contra o Estado”. A declaração gerou intensa repercussão nas redes sociais e entre organizações de direitos humanos.
Para entender a gravidade da medida, é importante observar que a revogação de cidadania em Israel é rara e costuma estar vinculada a casos de segurança nacional ou atividades consideradas contra‑estatistas. O anúncio, portanto, marca um ponto de tensão entre liberdade artística e política governamental.
- Acusação de traição ao Estado
- Denúncia de propaganda antissionista
- Intenção de revogar cidadania
O documentário NAZA e suas revelações
Intitulado NAZA, o filme apresenta supostas utilizações de sistemas de inteligência artificial pelas forças armadas israelenses para identificar e atacar alvos em Gaza. Segundo a sinopse oficial do Festival de Veneza, a produção demonstra como a rede de telecomunicações controlada por Israel seria usada para mapear movimentações civis.
Os cineastas mostraram entrevistas com soldados e operadores que explicam a criação de programas espiões capazes de abrir telefones, ouvir conversas e determinar “os últimos momentos” de crianças, mulheres e homens antes de um bombardeio.
Durante a exibição em Veneza, o público aplaudiu de pé por 25 minutos, sinalizando forte apoio internacional ao conteúdo crítico do documentário.
Abraham, ao receber o prêmio, destacou a rejeição que o filme tem enfrentado dentro de Israel, afirmando que políticos e jornalistas atacam a obra sem sequer assisti‑la, tentando evitar o confronto com a realidade.
Ele também enumerou, em depoimentos, o número de crianças palestinas mortas em poucos dias de guerra, citando casos específicos: uma menina de três anos em escola bombardeada, um menino de sete anos morto em carro com o pai, e duas irmãs que morreram enquanto dormiam.
Reação dos cineastas e da comunidade internacional
Yuval Abraham e Rachel Szor responderam ao ataque do ministro defendendo a liberdade de expressão e denunciando a tentativa de silenciar vozes críticas. Eles ressaltaram que a violência contra jornalistas palestinos – mais de 200 mortos segundo relatos – demonstra a urgência de expor esses fatos.
Organizações de direitos humanos, como Anistia Internacional e Human Rights Watch, emitiram comunicados condenando a proposta de revogação de cidadania, argumentando que tal ação viola princípios básicos de liberdade de expressão e de imprensa.
Vários cineastas internacionais manifestaram solidariedade, lançando petições online pedindo que o governo israelense respeite a cidadania dos autores e permita que o debate continue sem retaliações.
Além disso, o Festival de Cinema de Veneza reiterou seu apoio ao filme, afirmando que a arte deve ser um espaço para questionamento e que a censura política é incompatível com os valores do festival.
Implicações legais e de direitos civis
A legislação israelense prevê que a cidadania pode ser revogada por atos que representem ameaça à segurança do Estado. Contudo, especialistas em direito constitucional apontam que a simples produção de um documentário não se enquadra nos critérios estabelecidos pela lei.
Advogados de direitos civis argumentam que a medida poderia abrir precedentes perigosos, permitindo que o governo use a cidadania como ferramenta de controle político sobre artistas e jornalistas.
Se a revogação for efetivada, os cineastas poderiam enfrentar restrições de viagem, perda de direitos sociais e dificuldades para exercer a profissão fora de Israel.
Ao mesmo tempo, a controvérsia trouxe à tona discussões sobre a responsabilidade das plataformas de mídia social na difusão de conteúdo sensível e sobre a necessidade de proteger criadores que abordam temas de conflito armado.
Em resumo, o caso ilustra o choque entre segurança nacional, liberdade artística e direitos humanos em um cenário de guerra prolongada, levantando questões que ultrapassam as fronteiras de Israel e alcançam a comunidade internacional.








