Uma pesquisa realizada entre 10 e 13 de setembro revelou que a maioria dos eleitores brasileiros não vê a crise no Supremo Tribunal Federal como fator determinante para a escolha do presidente nas próximas eleições. O estudo, com 2.004 participantes, foi encomendado pelo jornal O Globo e pela Globo. Os resultados foram divulgados na segunda‑feira, 14 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Contexto da turbulência no Supremo
O início de setembro trouxe à tona um conjunto de documentos confidenciais que ligam o ex‑dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a mensagens trocadas com o ministro Alexandre de Moraes. A revelação ocorreu após o ministro André Mendonça tornar público um relatório da Polícia Federal que detalhava essas comunicações. A situação escalou quando Moraes solicitou a investigação de Mendonça por suposto abuso de poder e favorecimento político.
Além das trocas de mensagens, o relatório apontou possíveis conflitos de interesse envolvendo familiares de ministros e negócios vinculados ao banco. A imprensa acompanhou de perto as reações dentro do STF, que incluíram a suspensão de sessões plenárias por parte do presidente da Corte, ministro Luís Roberto Barroso, para evitar confrontos diretos entre os magistrados. A crise também provocou divergências sobre a condução de investigações contra membros da própria instituição.
Metodologia e alcance da pesquisa Quaest
A Quaest entrevistou 2.004 eleitores em todo o país, utilizando amostragem probabilística estratificada por região, idade e nível educacional. Cada participante respondeu a uma pergunta central: “A crise no STF influencia seu voto para presidente?”. As respostas foram categorizadas em três opções: não influencia, reforça a escolha atual ou poderia mudar a decisão.
Para garantir a representatividade, a pesquisa adotou margens de erro diferentes conforme o segmento analisado. A seguir, apresentamos os principais indicadores de precisão:
- Margem de erro geral: ±2 pontos percentuais.
- Direita não bolsonarista: ±3 pontos percentuais.
- Bolsonaristas: ±4 pontos percentuais.
- Lulistas: ±5 pontos percentuais.
- Eleitores independentes: ±6 pontos percentuais.
Resultados por posicionamento político
Entre os eleitores que se identificam como direita não bolsonarista, 40% afirmam que a crise no STF reforça a decisão já tomada sobre em quem votar, enquanto 60% permanecem indiferentes ao caso. No segmento bolsonarista, 35% sentem que a situação fortalece sua escolha, e 65% mantêm a posição anterior.
Os eleitores que se declaram lulistas mostraram o maior grau de neutralidade: 84% disseram que a crise não tem impacto no voto, apenas 3% considerariam mudar de candidato. Na esquerda não lulista, 76% também descartaram qualquer influência, mas 12% admitiram a possibilidade de alterar a preferência.
Um grupo particularmente relevante são os eleitores independentes, que representam cerca de um terço do eleitorado total. Desses, 66% afirmaram que a crise não altera seu voto, 19% disseram que o episódio reforça a escolha atual e 9% considerariam mudar de candidato.
Análise das tendências eleitorais
Os números indicam que, apesar da intensa cobertura midiática, a maioria dos brasileiros não utiliza a crise institucional como critério decisivo nas urnas. Esse comportamento pode refletir uma percepção de que questões econômicas e de segurança ainda ocupam lugar de destaque nas prioridades dos eleitores.
Além disso, a diferença entre os grupos políticos evidencia que a crise tem maior ressonância entre eleitores mais alinhados ideologicamente. Enquanto a direita não bolsonarista e os bolsonaristas veem a situação como potencial reforço de sua posição, a esquerda tende a minimizar seu efeito.
Os independentes, que são decisivos em eleições apertadas, mantiveram a maior parte de sua postura neutra, o que sugere que a crise ainda não se traduziu em mobilização efetiva para mudar o panorama eleitoral.
Implicações para a corrida presidencial de 2026
Com as eleições presidenciais previstas para o final de 2026, os partidos ainda têm tempo para ajustar suas estratégias de campanha. O fato de que 67% dos entrevistados não atribuem importância à crise no STF pode levar os candidatos a focarem mais em propostas de políticas públicas do que em ataques institucionais.
Entretanto, a parcela que sente o reforço da escolha (aproximadamente 20% do total) pode ser ativada por narrativas que enfatizem a necessidade de estabilidade institucional. Essa minoria pode ser decisiva em estados-chave, onde a diferença entre vitória e derrota costuma ser de poucos pontos percentuais.
Por outro lado, os 9% dos independentes que admitiram a possibilidade de mudar de candidato representam um público vulnerável a campanhas de convencimento. Estratégias de comunicação que abordem a crise de forma transparente, sem sensacionalismo, podem captar a atenção desses eleitores.
Em resumo, a pesquisa indica que a crise no STF ainda não se consolidou como fator de polarização eleitoral, mas permanece como elemento potencial a ser explorado nas próximas semanas de campanha.








