O papa Leão XIV anunciou nesta segunda-feira (14) a revogação dos cortes de salários impostos a cardeais e altos funcionários da Cúria, medida que havia sido adotada por seu predecessor, o papa Francisco, em 2021. A decisão foi publicada em um motu proprio que entra em vigor a partir de 1º de setembro de 2026, marcando uma mudança significativa na política interna do Vaticano. O anúncio foi feito no mesmo dia em que o pontífice completou 71 anos de idade, reforçando a ideia de um novo ciclo de liderança.
Fim dos cortes salariais aos cardeais e funcionários da Cúria
Em março de 2021, diante da crise provocada pela pandemia de covid‑19, o papa Francisco determinou uma redução de 10% nos salários dos cardeais e de 8% nos vencimentos dos altos funcionários dos dicastérios. Na época, a medida foi apresentada como uma ação de austeridade necessária para equilibrar as finanças da Santa Sé, que enfrentava um déficit crônico agravado pela queda de receitas.
Com a revogação, os salários voltarão aos valores anteriores a 2021. Segundo estimativas recentes, um cardeal da Cúria recebe entre 4.500 e 5.000 euros mensais, o que corresponde a aproximadamente 28 mil a 31 mil reais. Para os funcionários de nível superior, os reajustes também serão aplicados, garantindo a restauração dos rendimentos que haviam sido reduzidos.
- Redução de 10% nos salários dos cardeais (2021)
- Redução de 8% nos salários dos altos funcionários (2021)
- Revogação efetiva a partir de 1º de setembro de 2026
O papa Leão XIV enfatizou que a medida tem como objetivo reconhecer o trabalho dedicado dos membros da Cúria e melhorar o clima interno, que havia sido afetado por cortes considerados drásticos por alguns setores.
Contexto econômico da Santa Sé
O panorama financeiro do Vaticano mudou consideravelmente nos últimos anos. No relatório anual divulgado em maio, o Instituto para as Obras de Religião – popularmente conhecido como Banco do Vaticano – registrou um lucro líquido de 51 milhões de euros, equivalente a cerca de R$ 317 milhões, classificando o período como “ano recorde”.
Esse resultado positivo decorre de uma combinação de fatores, entre eles a recuperação das doações dos fiéis, o aumento das receitas provenientes de investimentos e a gestão mais rígida dos custos operacionais. Além disso, o turismo religioso, que voltou a crescer após as restrições da pandemia, contribuiu para a elevação das receitas de hotéis e lojas dentro do Estado da Cidade do Vaticano.
Com as finanças em melhor situação, a Santa Sé tem mais margem para rever decisões de austeridade que foram adotadas em tempos de crise. O papa Leão XIV destacou que a revogação dos cortes salariais é um reflexo da estabilidade econômica recém‑alcançada.
Reversão do plano de transferência da Biblioteca do Vaticano
Além da questão salarial, Leão XIV anulou outro projeto importante de Francisco: a proposta de transferir parte dos arquivos da Biblioteca do Vaticano para fora dos muros do micro‑Estado. O plano original visava aliviar a falta de espaço físico, mas encontrou resistência entre especialistas em preservação de documentos e entre os próprios membros da Cúria.
Em vez da transferência, o papa optou por investir na construção de um novo edifício dentro do Vaticano, destinado a abrigar a expansão da coleção. O novo complexo contará com salas climatizadas, sistemas de segurança avançados e áreas de pesquisa para estudiosos de todo o mundo.
Esta decisão reforça a intenção de manter o patrimônio cultural da Igreja Católica sob a proteção direta da Santa Sé, ao mesmo tempo em que demonstra um compromisso com a modernização das infraestruturas internas.
Impactos e perspectivas para o futuro
A revogação dos cortes salariais e a decisão sobre a Biblioteca têm implicações amplas tanto para o clima interno do Vaticano quanto para a imagem da Igreja perante o público global. Internamente, a medida deve melhorar a motivação dos funcionários e reduzir tensões que surgiram durante o período de austeridade.
Externamente, a notícia reforça a percepção de que o Vaticano está em um momento de recuperação e de planejamento estratégico de longo prazo. O fortalecimento das finanças permite que a Santa Sé invista em projetos culturais, educacionais e de assistência social, alinhados com a missão da Igreja.
Analistas apontam que, nos próximos anos, a Santa Sé poderá focar em iniciativas de evangelização digital, renovação de estruturas de apoio aos pobres e expansão de programas de diálogo inter‑religioso, contando com recursos mais estáveis para apoiar essas ações.
Em suma, a ação de Leão XIV sinaliza uma mudança de postura: de medidas emergenciais de contenção para uma estratégia de crescimento sustentável, que busca equilibrar a tradição com as exigências do mundo contemporâneo.








