A perícia da Polícia Civil de São Paulo constatou que 27 aparelhos eletrônicos apreendidos em junho não foram lacrados corretamente, comprometendo a cadeia de custódia. Os dispositivos foram recolhidos durante a operação contra a produtora do filme “Dark Horse” e devolvidos para readequação dos lacres. A descoberta foi divulgada após o ministro Flávio Dino retirar o sigilo dos documentos do inquérito.
Operação e apreensão dos dispositivos
A ação policial ocorreu no dia 1º de junho, em residências e empresas vinculadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB). O ICB, presidido por Karina Ferreira da Gama, também controla a Go Up Entertainment, responsável pela cinebiografia do ex‑presidente Jair Bolsonaro. A investigação parte de suspeitas de fraude em um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para implantação de Wi‑Fi gratuito.
Durante a operação, agentes apreenderam notebooks, celulares e pen drives que poderiam conter evidências sobre o suposto desvio de recursos. Os aparelhos foram encaminhados inicialmente para a 2ª Delegacia de Polícia de Investigações Sobre Crimes Contra a Administração Pública do Estado de São Paulo, com o objetivo de serem lacrados e preservados.
Perícia aponta falhas nos lacres
Em relatório datado de 3 de junho, a perita criminal Viviane Menezes descreveu que os lacres apresentavam vão suficiente para a retirada dos componentes internos. A falha foi identificada em:
- 9 notebooks
- 5 celulares
- 13 pen drives
Segundo o documento, o espaço nos lacres permitia a passagem de cabos de alimentação e transferência de dados, o que poderia facilitar a manipulação dos dispositivos antes da análise pericial. A perícia não esclareceu se os aparelhos foram efetivamente violados durante esse período.
Os dispositivos foram recolocados em novos invólucros no dia 8 de junho e enviados ao Instituto de Criminalística para readequação da lacração. O objetivo declarado foi garantir a preservação da cadeia de custódia, essencial para a validade das provas em processos judiciais.
Impactos na investigação e cadeia de custódia
Após a readequação, os aparelhos permaneceram no Instituto de Criminalística até 23 de julho, aguardando análise. A demora foi justificada pelo elevado volume de casos e a fila de exames pendentes. Enquanto isso, os dados extraídos foram disponibilizados à delegacia responsável pela investigação.
Os documentos anexados ao processo não mencionam se a integridade física dos aparelhos foi verificada após a correção dos lacres. Essa ausência de informação gera dúvidas sobre a possibilidade de contaminação das provas, o que pode comprometer a robustez da acusação contra os investigados.
A falta de clareza também levanta questões sobre a transparência dos procedimentos periciais e a necessidade de protocolos mais rigorosos para o manuseio de evidências digitais.
Repercussões políticas e judiciais
O caso ganhou destaque nacional quando o ministro Flávio Dino, do STF, determinou a retirada do sigilo dos documentos do inquérito. A decisão permitiu que a imprensa e o público tivessem acesso a detalhes da investigação, incluindo a falha nos lacres.
A operação contra a Go Up Entertainment está inserida em um contexto mais amplo de suspeitas de corrupção envolvendo contratos públicos de tecnologia. A produção do filme “Dark Horse”, que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro, está sob escrutínio por suposto financiamento irregular.
Além das implicações penais, o episódio pode influenciar a opinião pública sobre a condução de investigações digitais no Brasil, ressaltando a importância de procedimentos técnicos adequados para evitar contestações futuras.
O Ministério Público de São Paulo continua a analisar os documentos e a buscar esclarecimentos sobre a integridade dos aparelhos apreendidos. Enquanto isso, a defesa da produtora alega que as falhas nos lacres não comprometem a autenticidade dos dados já extraídos.








