A Polícia Civil de São Paulo, nesta segunda‑feira (13), autorizou o acesso aos registros do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) referentes a Karina Ferreira da Gama. A medida ocorre após quatro pedidos feitos desde maio de 2024 e tem como foco o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo longa‑metragem “Dark Horse”. O objetivo é esclarecer se recursos públicos foram desviados para financiar a obra que retrata a vida do ex‑presidente Jair Bolsonaro.
Contexto da investigação
Karina Ferreira da Gama atua como presidente do Instituto Conhecer Brasil, entidade que recebe emendas parlamentares e celebra contratos com o poder público do estado de São Paulo. Paralelamente, ela é sócia única da Go Up Entertainment, empresa que está produzindo o filme “Dark Horse”, um projeto de alto orçamento filmado em inglês, com equipe de Hollywood.
Os investigadores da Polícia Civil apontam duas linhas de suspeita principais: primeiro, a possibilidade de que recursos do programa “WiFi Livre SP” tenham sido canalizados para a produção cinematográfica; segundo, a utilização de contas de empresas subcontratadas e de outras organizações sociais controladas por Karina para mascarar a origem dos valores.
Sequência de pedidos ao Coaf
Desde maio, a polícia seguiu um roteiro de solicitações formais ao Coaf, conforme detalhado a seguir:
- Maio de 2024 – primeiro pedido de Relatório de Inteligência Financeira (RIF) com histórico de movimentações a partir de 20/06/2024.
- Junho de 2024 – reforço do pedido, argumentando que o relatório permitiria rastrear transações bancárias do ICB e da pessoa física.
- Julho de 2024 – nova solicitação, enfatizando a necessidade de manter o caso sob segredo de justiça.
- 28 de agosto de 2024 – decisão do juiz Nelson Augusto Bernardes negando o pedido por falta de especificação detalhada.
Em 3 de setembro, a Polícia Civil enviou à Justiça um conjunto de provas complementares, buscando suprir as lacunas apontadas pelo magistrado.
Decisão do Supremo Tribunal Federal
O ministro Flávio Dino, do STF, interveio ao retirar o sigilo do inquérito, autorizando o acesso aos documentos do Coaf. Em nota, a defesa de Karina recebeu a decisão como positiva, ressaltando que a transparência permitirá que os fatos sejam analisados objetivamente, sem especulações.
Com a liberação, os investigadores poderão examinar detalhes como:
- Transferências entre contas vinculadas ao ICB e à Go Up Entertainment;
- Fluxos financeiros provenientes de empresas subcontratadas;
- Aplicação de recursos do programa “WiFi Livre SP” em despesas de produção cinematográfica.
A expectativa é que o relatório revele se houve confusão patrimonial, prática comum em casos de desvio de verbas públicas.
Impactos políticos e midiáticos
O caso ganha relevância não apenas pela quantia envolvida – estimada entre R$ 8 milhões e R$ 20 milhões – mas também pelo tema sensível do filme, que narra a trajetória de Jair Bolsonaro, figura central da política nacional. A possibilidade de recursos públicos terem sido empregados em uma obra que pode influenciar a opinião pública levanta questões sobre a neutralidade do uso de verbas estatais.
Analistas de comunicação destacam que a exposição do processo pode afetar a credibilidade de programas de inclusão digital, como o “WiFi Livre SP”, e gerar pressão sobre órgãos de controle interno para aprimorar mecanismos de fiscalização.
Enquanto isso, a comunidade cinematográfica acompanha o desenrolar da investigação, temendo que eventuais bloqueios financeiros possam atrasar a estreia prevista para o final de 2025.
Em resumo, a decisão do STF abre caminho para que a Polícia Civil obtenha dados essenciais ao esclarecimento de possíveis desvios. O caso ainda está em fase de coleta de informações, e novos desdobramentos deverão ser divulgados nas próximas semanas.








