Em janeiro de 1985, a Cidade do Rock, situada em Jacarepaguá, recebeu o primeiro Rock in Rio, marcando a história da música ao vivo no Brasil. Durante dez dias intensos, mais de 1,3 milhão de fãs enfrentaram chuva, calor escaldante e desafios de infraestrutura para viver a experiência única do festival.
Chuva, lama e calor: os perrengues climáticos
Os registros da época mostram que a precipitação atingiu a cidade em cinco dos dez dias de evento – 13, 14, 16, 17 e 20 de janeiro. O dia 17 ficou famoso como o mais chuvoso, transformando a pista em verdadeiros lagos de lama.
Mesmo encharcados, os roqueiros não perderam o ritmo. Imagens de telejornais revelam músicos pulando em poças, enquanto o público, coberto por capas improvisadas, continuava a dançar ao som dos grandes nomes.
Quando o sol surgia entre as nuvens, o calor se tornava o novo vilão. A multidão buscava alívio nos chafarizes espalhados pela área, criando cenas de praia improvisada, com biquínis, sungas e muita animação.
Camping e a vida na Cidade do Rock
Grande parte dos espectadores optou por acampar nos arredores da festa, montando tendas em meio à vegetação de Jacarepaguá. Muitos passaram oito dias consecutivos no local, enfrentando a falta de água corrente para banho.
Um dos relatos mais curiosos vem de um garimpeiro de Brasília, que abandonou a Serra Pelada para curtir o festival. Ele descreveu a experiência como “uma aventura de sobrevivência musical”, destacando a ausência de chuveiros e a necessidade de improvisar.
Além do camping, outro obstáculo da época era a comunicação. Sem internet móvel, os fãs recorriam aos orelhões – pequenas cabines amarelas que exigiam fichas – para deixar recados aos amigos que não puderam comparecer.
Filas longas se formavam diante dos telefones públicos, e alguns entrevistados, irritados com a espera, faziam comentários bem-humorados para a imprensa.
Moda, tecnologia e momentos marcantes
A estética dos anos 80 dominava o visual dos participantes. Óculos coloridos, brincos em formato de raio e cabelos volumosos eram itens obrigatórios nos looks de festival.
Ilze Scamparini, jornalista da Globo, capturou essas tendências em uma reportagem especial, experimentando alguns dos acessórios mais divertidos da época.
O show contou com uma lista de artistas que se tornariam ícones da música mundial e nacional. Entre eles, destacam‑se:
- Queen
- Iron Maiden
- Ney Matogrosso
- Barão Vermelho
- James Taylor
Essas apresentações atraíram um público recorde. A primeira noite, em 11 de janeiro, reuniu cerca de 470 mil pessoas, segundo a Memória Globo, estabelecendo um marco de público para o evento.
Apesar dos perrengues, o festival foi considerado um sucesso de público e de produção, consolidando o Rock in Rio como um dos maiores eventos musicais do planeta.
Hoje, ao comparar as edições atuais com a de 1985, percebe‑se a evolução em infraestrutura, mas também a nostalgia de um tempo em que a música era vivida de forma crua e intensa.
Os arquivos da Globo preservam essas memórias sem filtros digitais, permitindo que novas gerações compreendam a energia e a resiliência dos primeiros fãs do Rock in Rio.
Em resumo, o Rock in Rio de 1985 foi muito mais que um concerto: foi um teste de resistência, criatividade e paixão pela música, que deixou marcas indeléveis na história cultural brasileira.








