Em relatório entregue nesta quarta‑feira (10) ao ministro Flávio Dino, do STF, a Polícia Federal revelou transferências que totalizam cerca de R$ 1,4 milhão entre o deputado federal Mário Frias, a empresa NTT Brasil e a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse” sobre o ex‑presidente Jair Bolsonaro.
Os recursos foram movimentados entre outubro e dezembro de 2025, período em que as filmagens do longa ocorreram em São Paulo, levantando dúvidas sobre a origem e a justificativa financeira desses repasses.
Detalhes das transferências suspeitas
A PF identificou duas operações principais: um aporte de R$ 645,4 mil feito diretamente por Mário Frias à Go Up Entertainment e um pagamento de R$ 750 mil realizado pela NTT Brasil à mesma produtora.
O deputado, que declara rendimentos mensais de R$ 44.008,52, teria enviado o valor em menos de 60 dias, fato que a polícia descreve como incompatível com seu “lastro financeiro”.
Já a NTT Brasil, administrada pelo empresário Heric Dias, efetuou o segundo repasse em um momento próximo ao recebimento de cerca de R$ 700 mil do Instituto Conhecer Brasil (ICB) por duas empresas do mesmo grupo empresarial.
Essas duas transações somam R$ 1,395,4 milhões, valor que, segundo a investigação, não encontra respaldo nas declarações de renda dos envolvidos.
Relações entre empresas, políticos e organizações
O Instituto Conhecer Brasil, liderado por Karina Ferreira Gama – também dona da Go Up Entertainment – recebeu emenda parlamentar de Mário Frias e, por meio de um termo de fomento (nº 971232), subcontratou a Dinâmica Editora e o Instituto Super Poder Educacional, que juntos receberam aproximadamente R$ 700 mil.
A NTT Brasil, por sua vez, faz parte de um conglomerado que inclui fornecedores ligados ao ICB, reforçando a suspeita de um fluxo financeiro encadeado entre as partes.
Documentos da PF apontam ainda que Luiza Tessari Dias, esposa de Heric Dias, doou R$ 70 mil à campanha de Frias em 2022, indicando um histórico de apoio mútuo.
Entre os principais beneficiários dos recursos movimentados pela Go Up, destacam‑se:
- Hotel Unique – R$ 906.700,00
- Foodflix Alimentação – R$ 653.100,00
- Empresas de produção audiovisual – valores não especificados individualmente
Esses pagamentos coincidem com a fase de gravação de “Dark Horse”, que ocorreu entre 20 de outubro e 7 de dezembro de 2025, sugerindo que parte dos recursos pode ter sido destinada a cobrir custos de produção.
Implicações para a produção de “Dark Horse”
Durante o período analisado, a Go Up Entertainment registrou movimentação financeira de cerca de R$ 19 milhões, divididos entre R$ 8,9 milhões em créditos e R$ 10 milhões em débitos, operações classificadas pela PF como atípicas.
A coincidência temporal entre os desembolsos e as filmagens levanta a possibilidade de que o filme tenha sido financiado, direta ou indiretamente, por recursos públicos ou de origem questionável.
Além disso, a presença de figuras públicas como o senador Flávio Bolsonaro e o ator Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro no filme, amplia o interesse midiático e político sobre o caso.
Os investigadores ainda não concluíram se há indícios de crime, mas a documentação apresentada indica a necessidade de aprofundamento das apurações, sobretudo quanto à legitimidade dos repasses e ao cumprimento das normas de prestação de contas.
Se confirmadas irregularidades, as consequências podem envolver desde a devolução dos valores até sanções penais e administrativas para os envolvidos.
O caso também reacende o debate sobre a influência de recursos financeiros em produções culturais que abordam figuras políticas controversas, ressaltando a importância de transparência e fiscalização nos processos de financiamento.
Enquanto a PF continua analisando os dados, o filme “Dark Horse” permanece em fase de pós‑produção, aguardando distribuição e eventual estreia nos cinemas brasileiros.
O desfecho da investigação poderá impactar não só os responsáveis diretos, mas também o cenário de produção audiovisual no país, que tem sido alvo de crescente escrutínio quanto à origem de seus investimentos.








