Em 7 de setembro de 2026, o Departamento de Estado dos Estados Unidos não divulgou nenhum comunicado oficial comemorando o Dia da Independência do Brasil. A omissão ocorreu apesar da prática habitual de enviar mensagens de parabéns a mais de 180 países nos últimos doze meses. O fato aconteceu enquanto as relações comerciais entre os dois países se aprofundam em um clima de tensão e retaliações tarifárias.
Contexto das felicitações diplomáticas dos EUA
Desde o início da administração Trump, retomada em janeiro de 2025, o governo americano tem mantido a tradição de publicar notas públicas em datas consideradas “Dia Nacional” de países aliados ou parceiros. Essas mensagens costumam destacar laços históricos, cooperação econômica e valores compartilhados.
Nos últimos doze meses, entre setembro de 2025 e setembro de 2026, os EUA enviaram felicitações a mais de 180 nações, abrangendo continentes da América Latina à Ásia, passando por pequenos principados europeus.
- Andorra – Dia de Nossa Senhora de Meritxell (8 de setembro)
- Argentina – Dia da Patria (9 de julho)
- Japão – Dia da Constituição (3 de maio)
- Venezuela – Dia da Independência (5 de julho)
- Rússia – Dia da Vitória (9 de maio)
Mesmo países com relações diplomáticas delicadas, como Rússia, China e Venezuela, foram incluídos nas mensagens, demonstrando que a prática não está restrita apenas a aliados tradicionais.
Brasil e a ausência nas mensagens de congratulação
O Brasil foi um dos nove países que ficaram de fora da lista de felicitações. A exclusão gerou especulação entre analistas políticos, que associam o silêncio a uma deterioração nas relações bilaterais desde a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros.
O levantamento realizado pelo g1 considerou apenas comunicados publicados entre 10 de setembro de 2025 e 9 de setembro de 2026, reforçando que a omissão não foi um descuido pontual, mas parte de um padrão recente.
- Julho de 2025 – Anúncio de tarifas de 25% sobre determinados bens brasileiros.
- Maio de 2026 – Classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
- Julho de 2026 – Nova tarifa de 12,5% por supostas práticas de trabalho forçado.
- Agosto de 2026 – Revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington.
Esses eventos criaram um clima de desconfiança que, segundo especialistas, pode ter influenciado a decisão de não enviar a mensagem de parabéns ao Brasil.
Impacto das tarifas e sanções americanas
As tarifas impostas pelos EUA têm origem na Seção 301 da Lei de Comércio, que permite medidas corretivas contra práticas comerciais consideradas desleais. O governo Trump alegou que o Brasil adota políticas que “oneram ou restringem” o comércio bilateral.
Entre os motivos citados, destacam-se o sistema de pagamentos instantâneos PIX e a regulação de plataformas digitais, que, segundo Washington, favorecem empresas locais em detrimento de concorrentes norte‑americanos.
Além das tarifas, a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas elevou o nível de tensão diplomática. Essa medida ocorreu poucos dias após o senador Flávio Bolsonaro se reunir com Trump e o secretário de Estado Marco Rubio nos Estados Unidos.
As sanções tiveram repercussões imediatas nos setores de agronegócio, tecnologia e manufatura. Exportadores de soja, carne bovina e café relataram aumento de custos operacionais e diminuição da competitividade nos mercados norte‑americanos.
Perspectivas para as relações bilaterais
Analistas apontam que a situação pode evoluir de duas maneiras principais: um possível reatamento diplomático, caso haja concessões mútuas, ou um aprofundamento das tensões, com novas medidas de retaliação.
O Itamaraty, por sua vez, tem buscado negociar a revogação das tarifas e a restauração dos vistos diplomáticos, enfatizando a importância do comércio bilateral para ambas as economias.
Entretanto, a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, anunciada em agosto de 2026, indica que a confiança ainda está em baixa. A medida foi justificada pelos EUA como resposta à demora brasileira em conceder vistos a diplomatas norte‑americanos.
Em meio a esse cenário, organizações da sociedade civil e empresários têm pressionado por um diálogo mais aberto, ressaltando que a cooperação em áreas como energia renovável, segurança regional e ciência pode ser prejudicada se as tensões permanecerem.
O futuro das relações Brasil‑Estados Unidos dependerá, portanto, de negociações estratégicas, da capacidade de ambas as partes de encontrar um terreno comum e da disposição de superar questões comerciais em prol de interesses geopolíticos mais amplos.








