Em abril de 2023, em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, Eshiley Campos perdeu a bebê Maitê por complicações do vírus sincicial respiratório (VSR) e, um ano depois, engravida novamente, recebendo a primeira dose da vacina contra o VSR pelo SUS.
Primeira gestação e a tragédia
Eshiley, de 23 anos, trabalhava atrás do balcão de uma farmácia local e conhecia a maioria dos clientes pelo nome. Quando a primeira filha nasceu, ela decidiu isolar a casa, evitando visitas para proteger o recém‑nascido de possíveis infecções.
Três semanas após o parto, a bebê começou a apresentar uma tosse leve, sem febre. A mãe a levou ao médico, que não encontrou anormalidades e descartou gripe. No domingo seguinte, a tosse piorou e, na segunda‑feira, a criança passou a respirar com esforço.
Um clínico geral diagnosticou bronquiolite, condição geralmente provocada pelo VSR. O vírus inflama os bronquíolos, os menores canais de ar dos pulmões, reduzindo drasticamente a troca de oxigênio.
Nos dias que se seguiram, Eshiley buscou atendimento em quatro unidades de saúde diferentes. Em uma UPA, a bebê recebeu oxigênio e uma injeção, mas foi liberada sem internação, apesar da gravidade do quadro.
Na madrugada de quarta‑feira, a situação se agravou: a bebê parou de mamar, ficou com os olhos fechados e apresentava respiração ofegante. Poucas horas depois, a menina faleceu, deixando a mãe devastada.
O VSR e seu impacto na saúde infantil
Segundo o vice‑presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, o VSR é a principal causa de internação de bebês no primeiro ano de vida e responsável por grande parte das mortes por doenças respiratórias nos dois primeiros anos.
Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp, destaca que o vírus atinge com mais força bebês menores de seis meses, pois os pulmões ainda não estão totalmente desenvolvidos. A inflamação pode levar à necessidade de suporte ventilatório e, em casos críticos, causar lesões cerebrais por hipóxia.
A temporada do VSR no Brasil se estende de março a agosto, coincidindo com o período em que a maioria dos recém‑nascidos está mais vulnerável. A falta de vacinação preventiva aumenta o risco de surtos graves em comunidades.
Para reduzir a transmissão, especialistas recomendam medidas simples:
- Higienizar as mãos com água e sabão por, no mínimo, 20 segundos.
- Evitar contato próximo entre bebês e pessoas com sintomas respiratórios.
- Manter ambientes bem ventilados, sobretudo em locais fechados.
- Desinfetar superfícies frequentemente tocadas, como balcões e maçanetas.
Nova gravidez, vacinação e esperança
Em 2024, Eshiley descobriu estar grávida novamente. A notícia trouxe alívio, mas também apreensão, já que ela temia reviver o trauma da primeira perda.
Durante o pré‑natal, a gestante recebeu a primeira dose da vacina contra o VSR, disponibilizada pelo SUS a partir de 2023 para gestantes de alto risco. A vacina, que não havia sido acessível financeiramente na primeira gestação, agora chegou ao seu calendário de imunizações.
A imunização materna protege tanto a mãe quanto o bebê nos primeiros meses de vida, quando o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento. Estudos mostram redução significativa de casos graves de bronquiolite em recém‑nascidos cujas mães foram vacinadas.
Com a vacina em mãos, Eshiley sente que tem uma ferramenta a mais para proteger sua segunda filha, Helena, que já nasceu com seis meses e apresenta um desenvolvimento saudável.
Ao conversar com clientes na farmácia, a jovem mãe compartilha sua história, alertando sobre a importância da vacinação e dos cuidados preventivos. Ela relata que, apesar da dor da perda, encontrou força na possibilidade de oferecer ao filho futuro uma defesa contra o mesmo vírus que lhe tirou a primeira criança.
O caso de Eshiley ilustra como políticas públicas de vacinação podem transformar trajetórias individuais, especialmente em regiões onde o acesso a medicamentos ainda é limitado. A ampliação da oferta da vacina contra o VSR pelo SUS representa um passo importante na luta contra a mortalidade infantil por doenças respiratórias.
Para outras mães que enfrentam situações semelhantes, a mensagem é clara: buscar informações, aderir ao calendário vacinal e manter vigilância constante nos primeiros meses de vida dos bebês são estratégias essenciais para evitar tragédias evitáveis.








