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Enterro de Ratko Mladic atrai multidão em Belgrado e gera condenação internacional

Na manhã de segunda‑feira, 7 de setembro de 2024, milhares de pessoas se aglomeraram em frente à igreja ortodoxa de São Lucas, em Belgrado, para assistir ao funeral de Ratko Mladic, conhecido como o “açougueiro da Bósnia”. O ex‑comandante militar sérvio morreu em Haia, aos 84 anos, enquanto cumpria sentença por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Cerimônia e manifestações em Belgrado

Desde as primeiras horas, simpatizantes carregavam bandeiras tricolores e faixas que exaltavam o general falecido. Entre as mensagens, destacava‑se a frase: “Bem‑vindo, general. Obrigado à sua mãe por ter dado à luz a um herói, para que a glória da Grande Sérvia possa retornar”.

Dentro da igreja, o caixão fechado foi cercado por militares que guardavam o corpo. Alguns adeptos chegaram a beijar a tampa, enquanto sacerdotes ortodoxos recitavam orações em tom solene. A presença de veteranos da guerra dos anos 1990 aumentou ainda mais a tensão no local.

Devido ao número de participantes, a polícia precisou fechar as ruas adjacentes, redirecionando o trânsito e garantindo a segurança da multidão. O cortejo, que durou cerca de cinco horas, seguiu até um cemitério nos arredores da capital sérvia.

Reações da comunidade internacional

Um porta‑voz da União Europeia condenou a “glorificação de criminosos de guerra” e afirmou que tais atos são incompatíveis com os valores fundamentais da UE. A declaração reforçou a posição de Marta Kos, comissária europeia para a ampliação, que cancelou visita ao país após o funeral.

Organizações de direitos humanos, bem como representantes de países ocidentais, reiteraram a necessidade de lembrar as vítimas de Srebrenica e do cerco a Sarajevo, em vez de celebrar quem foi responsável pelos massacres.

O discurso oficial da UE destacou que a negação ou revisionismo histórico não tem espaço em processos de adesão ao bloco, lembrando que a Sérvia ainda busca a integração europeia.

Contexto histórico dos crimes de guerra

Durante a guerra da Bósnia (1992‑1995), Mladic comandou as forças sérvias da Bósnia em duas das mais brutais campanhas do conflito:

  • Cerco a Sarajevo: imposto por 1.425 dias, resultou em mais de 11 mil mortes, a maioria civis.
  • Massacre de Srebrenica: em julho de 1995, mais de 8 mil homens e meninos bósnios foram executados após a queda da “zona segura” da ONU.

Testemunhos de sobreviventes descrevem assassinatos, torturas e estupros cometidos pelas forças sérvio‑bósnias. Imagens da época mostram Mladic distribuindo doces a crianças antes de elas serem levadas para campos de extermínio.

O líder militar foi considerado herói nacional por parte da população sérvia, mas, simultaneamente, foi rotulado como “a quintessência do mal” pelo ex‑alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad al‑Hussein.

Desdobramentos políticos e judiciais

Após 16 anos foragido, Mladic foi capturado em 2011 na cidade de Lazarevo, na Sérvia, e extraditado para Haia. O Tribunal Penal Internacional para a ex‑Iugoslávia (TPIJ) o condenou, em 2017, à prisão perpétua por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A sentença foi confirmada em recurso em 2021.

O funeral reacendeu o debate interno sobre a memória da guerra nos Bálcãs. Enquanto alguns setores políticos defendem a reabilitação de figuras como Mladic, outros apontam para a necessidade de reconhecer oficialmente os crimes cometidos.

Especialistas em relações internacionais alertam que a glorificação de criminosos pode comprometer as negociações de adesão da Sérvia à UE, já que o bloco exige respeito aos direitos humanos e ao direito internacional.

Em meio ao clamor das famílias das vítimas, organizações de memória histórica pedem a criação de museus e monumentos que preservem a verdade sobre os horrores de Sarajevo e Srebrenica, evitando que o revisionismo se espalhe.

O funeral de Ratko Mladic, portanto, não foi apenas um rito de passagem, mas um ponto de inflexão que evidencia as profundas fissuras entre a narrativa nacionalista sérvia e as exigências da comunidade internacional por justiça e reconciliação.

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