Em 2025, a China avançou na estratégia de cortar a poluição antes que ela alcance o ar das grandes cidades, adotando medidas que atacam a origem das emissões. O governo chinês, em conjunto com universidades e empresas, está reconfigurando a matriz energética, a indústria pesada, o transporte e a construção civil. Essa mudança representa um novo capítulo na luta contra a degradação atmosférica no país mais populoso do mundo.
Resultados iniciais e desafios persistentes
Os indicadores de qualidade do ar mostram uma melhora significativa nos últimos anos. Entre 2016 e 2025, a concentração média de partículas finas (PM2,5) nas áreas urbanas caiu de 42 para 28 microgramas por metro cúbico. Essa redução demonstra que filtros avançados e normas mais rígidas para escapamentos ainda têm papel importante.
No entanto, a dimensão do problema permanece enorme. Mais de 940 milhões de chineses vivem em áreas urbanas, responsáveis por mais de 90% do PIB nacional e por cerca de 80% das emissões de carbono do país. A densidade populacional e a concentração de atividade econômica criam um cenário em que cada melhoria precisa ser ampliada rapidamente.
Além disso, a poluição tem custos humanos e econômicos alarmantes. Segundo o Relatório sobre a Situação Global do Ar de 2025, 7,9 milhões de mortes em 2023 foram atribuídas à poluição atmosférica, o que equivale a uma em cada oito mortes no planeta. Na China, as perdas de saúde foram estimadas entre 0,92% e 6,45% do PIB em 2024, enquanto desastres climáticos geraram danos diretos superiores a 350 bilhões de yuans.
Principais fontes de emissões e metas de redução
Um estudo apresentado pelo professor Zhang Xinyu, da Universidade de Geociências de Pequim, destaca quatro pilares que concentram a maioria das emissões: geração de eletricidade, indústria pesada, transportes e construção civil. Cada setor recebeu metas específicas para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e adotar tecnologias menos poluentes.
O carvão ainda domina a matriz energética chinesa, representando 54,67% do consumo total em 2021 – mais que o dobro da soma de petróleo e gás. Em comparação, a participação do carvão nos EUA era de 11,37%, na Europa 12,15% e na média mundial 26,9%.
A siderurgia é outro ponto crítico. O setor responde por 18% das emissões de carbono do país e por 11,8% das partículas finas lançadas na atmosfera. A China produz quase metade das 1,8 bilhão de toneladas de aço fabricadas mundialmente a cada ano, e suas siderúrgicas são responsáveis por cerca de 50% das emissões globais de carbono desse segmento.
Energia renovável e redes inteligentes
Uma das frentes mais visíveis da transição verde é a expansão das fontes renováveis. Em 2025, a capacidade instalada de energia limpa alcançou 2,34 bilhões de quilowatts, 24% a mais que no ano anterior, representando cerca de 60% da capacidade total de geração do país.
Os números detalhados mostram a força combinada da energia solar e eólica:
- Energia solar: 1,02 bilhão de quilowatts
- Energia eólica: 0,82 bilhão de quilowatts
- Total renovável: 1,84 bilhão de quilowatts (47% da geração total)
Para integrar essas fontes intermitentes, a China investiu em redes inteligentes que combinam sistemas de informação, comunicação e controle avançado. Em 2025, o país operava 44 rotas de transmissão interregional e mais de 40 mil quilômetros de linhas de corrente contínua de ultra‑alta tensão, alcançando uma confiabilidade de fornecimento de 99,924%.
Essas infraestruturas permitem prever a oferta de energia renovável e ajustar a distribuição em tempo real, evitando perdas e garantindo que a energia gerada em regiões ventosas ou ensolaradas chegue às áreas de maior demanda.
Transformação industrial e mobilidade urbana
No setor industrial, a substituição do calor gerado por combustíveis fósseis é prioridade. A indústria consome cerca de 65% da energia primária do país e gera 70% das emissões de CO₂ ligadas à energia. Estratégias como a eletrificação de processos, uso de hidrogênio verde e captura de carbono estão sendo testadas em fábricas piloto.
Um exemplo concreto são os novos fornos elétricos instalados em siderúrgicas da província de Hebei, que reduzem a queima de carvão em até 40% e diminuem as emissões de partículas em 30%.
Nos transportes, a política de eletrificação de veículos tem avançado rapidamente. Em 2025, havia mais de 12 milhões de veículos elétricos nas ruas chinesas, e o governo estabeleceu metas de 20 milhões até 2027. Além disso, a expansão de corredores de ônibus elétricos e a restrição de veículos a diesel em áreas centrais ajudam a reduzir a carga de poluentes nas cidades.
A construção civil também está passando por mudanças. Normas mais rígidas exigem isolamento térmico, uso de materiais de baixo carbono e integração de sistemas de energia solar nos edifícios. Projetos de “cidades inteligentes” incorporam sensores de qualidade do ar que ajustam automaticamente sistemas de ventilação e filtragem.
Embora o tratamento pós‑emissão – filtros, depuradores e sistemas de captura – continue sendo parte do mix, a ênfase maior está na prevenção. Ao reduzir a necessidade de pós‑tratamento, a China pretende alinhar a qualidade do ar aos padrões da Organização Mundial da Saúde, que estabelecem limites de 10 microgramas por metro cúbico para PM2,5.
Em resumo, a estratégia chinesa combina três vetores: diminuição do consumo de carvão, ampliação de energia limpa e modernização de processos industriais e de mobilidade. Cada um desses pilares tem metas quantificáveis, investimentos bilionários e prazos definidos, indicando que a transição verde está se consolidando como política de Estado.
O sucesso dessa abordagem pode servir de modelo para outras nações em desenvolvimento que enfrentam desafios semelhantes de crescimento econômico e qualidade do ar. Contudo, a continuidade dos esforços depende de monitoramento rigoroso, transparência nos dados e engajamento da sociedade civil, que tem cobrado cada vez mais ações concretas contra a poluição.








