Em novembro de 2026, o Paraguai mergulhou em uma profunda crise política e financeira que colocou em risco a permanência do presidente Santiago Peña. O ponto de partida foi a falência do banco digital Ueno, que deixou milhões de clientes sem acesso aos seus depósitos. A situação escalou rapidamente para o Congresso, onde a oposição apresentou um pedido de impeachment contra o chefe de Estado.
Colapso do Banco Ueno e seus desdobramentos
Na terça‑feira, 3 de novembro, o Banco Central do Paraguai decretou a liquidação do Ueno após constatar que a instituição não dispunha de recursos suficientes para honrar suas obrigações. A decisão foi motivada por empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao próprio banco, o que gerou um risco sistêmico.
Com cerca de 3 milhões de clientes e depósitos totalizando aproximadamente US$ 850 milhões, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social, o fechamento repentino provocou pânico entre os correntistas. Muitos relataram que seus fundos ficaram bloqueados, gerando filas nos caixas eletrônicos e reclamações nas redes sociais.
No dia seguinte, 4 de novembro, surgiram relatos de falhas nos aplicativos de outras instituições financeiras, alimentando ainda mais a insegurança. A Associação de Bancos do Paraguai informou que as entidades estavam trabalhando para atender ao grande volume de transferências de contas do Ueno, mas garantiu que o sistema bancário como um todo permanecia operacional.
Reação do Congresso e pedido de impeachment
Na quinta‑feira, 5 de novembro, a crise bancária chegou ao plenário da Câmara dos Deputados. Deputados da oposição apresentaram um pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña e o vice‑presidente Pedro Alliana, alegando conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários.
Os acusadores apontaram que Peña havia sido acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025, e que essa relação poderia ter influenciado decisões favoráveis ao banco. Além disso, afirmaram que o Banco Central teria encoberto irregularidades para proteger a imagem da instituição.
A Câmara aprovou por unanimidade, com 78 votos, a abertura do processo de impeachment contra Peña. O pedido contra Alliana foi rejeitado, o que significa que, caso o presidente seja afastado, o vice‑presidente assumirá a Presidência.
Renúncia de Santiago Peña e impasse institucional
Horas depois da votação, Santiago Peña divulgou um vídeo nas redes sociais anunciando sua renúncia. O presidente pediu desculpas aos clientes afetados pela crise bancária e justificou a decisão como medida para preservar a estabilidade do país, a paz social e as instituições democráticas.
Entretanto, a renúncia precisou ser analisada pelo Congresso. Na tarde de quinta‑feira, os parlamentares iniciaram o debate sobre a aceitação ou rejeição do pedido. Governistas defendiam que aceitar a renúncia seria a forma mais rápida de encerrar a crise, enquanto a oposição argumentava que a rejeição permitiria a continuidade do processo de impeachment.
A oposição alertou que, se Peña deixasse o cargo voluntariamente, poderia assumir uma vaga de senador vitalício, garantindo-lhe imunidade parlamentar e dificultando eventuais processos judiciais.
O Senado, programado para retomar a análise do impeachment na sexta‑feira, 6 de novembro, ainda não havia tomado uma decisão definitiva, mantendo o país em estado de incerteza política.
Perspectivas e consequências para a democracia paraguaia
Analistas políticos apontam que a crise pode ter impactos duradouros na confiança dos cidadãos nas instituições financeiras e governamentais. A falha do Ueno expôs fragilidades regulatórias que exigirão reformas estruturais no sistema bancário.
Do ponto de vista institucional, o processo de impeachment pode servir como teste de resistência da democracia paraguaia. Caso o Senado decida pela continuidade do processo, o país poderá vivenciar um dos maiores momentos de instabilidade política de sua história recente.
Por outro lado, a aceitação da renúncia poderia abrir caminho para uma transição pacífica de poder, mas também levantaria questões sobre a sucessão e a capacidade do novo presidente em restaurar a confiança pública.
Em síntese, a situação demonstra como um problema financeiro pode desencadear uma crise política de grandes proporções, colocando em risco a governabilidade e a imagem internacional do Paraguai.
- Impacto econômico: perda de confiança dos investidores estrangeiros.
- Repercussão social: aumento da pressão popular por reformas bancárias.
- Consequência política: potencial mudança de liderança no Executivo.
O futuro do Paraguai dependerá das decisões que o Congresso tomar nos próximos dias, bem como da capacidade das autoridades em implementar medidas que evitem novos colapsos financeiros e garantam a estabilidade institucional.








