No domingo, 6 de setembro de 2024, a Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou 44% dos votos no pleito regional da Saxônia-Anhalt, marcando o melhor resultado da história da sigla no estado. O resultado, porém, ficou aquém da maioria absoluta necessária para governar sem apoio externo.
Resultados eleitorais e significado histórico
A vitória da AfD representa um salto de quase 20 pontos percentuais em relação à eleição estadual de 2019, quando o partido obteve cerca de 22% dos votos. Esse crescimento reflete uma tendência de radicalização em parte do eleitorado alemão, especialmente nas regiões do leste do país.
Com 39 cadeiras no parlamento estadual, a AfD ficou a apenas três assentos da maioria necessária para formar governo sozinho. Apesar da força numérica, a classificação da agência de inteligência doméstica como “extremista de direita confirmada” impede a formação de alianças tradicionais.
Até hoje, nenhuma região da Alemanha foi governada por um partido de extrema direita desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A única exceção recente foi a Turíngia em 2024, onde a AfD ficou em primeiro lugar, mas foi bloqueada por coalizões de centro‑direita e centro‑esquerda.
Os resultados também revelaram a presença de novos atores políticos, como a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), que conquistou cinco cadeiras ao ultrapassar a barreira de 5% dos votos. Esse grupo combina propostas econômicas progressistas com posições sociais conservadoras, aproximando‑se da agenda anti‑imigração da AfD.
- AfD – 44% dos votos, 39 cadeiras
- CDU – segundo colocado, sem maioria
- BSW – 5 cadeiras, 5,2% dos votos
- Outros partidos – restante das cadeiras
Desafios para a formação de governo
Sem maioria absoluta, a AfD precisará buscar apoio pontual para aprovar leis e manter a estabilidade governamental. O líder estadual Ulrich Siegmund sugeriu que está disposto a “estender a mão” a partidos que queiram colaborar, mas deixou claro que não pretende assumir um governo minoritário.
A União Democrata‑Cristã (CDU), liderada nacionalmente por Friedrich Merz, descartou qualquer cooperação formal com a AfD, reforçando o “firewall” político que impede alianças com a extrema direita. Essa postura foi reiterada pela secretária‑geral da AfD, Franziska Hoppermann.
Entretanto, dentro da CDU há um debate interno. Alguns membros, insatisfeitos com a queda de popularidade do chanceler, defendem uma aproximação estratégica com a AfD para garantir maior influência nas decisões regionais.
A possibilidade de um acordo de tolerância – onde a AfD não faria parte do governo, mas apoiaria projetos específicos – tem sido mencionada como alternativa viável. Esse modelo exigiria negociações caso a caso, com foco em temas como segurança pública e políticas de imigração.
Outra opção discutida é a formação de uma coalizão informal com a BSW. Juntas, AfD e BSW somariam 43 cadeiras, superando em apenas um voto a maioria necessária. No entanto, a copresidente do BSW, Amira Mohamed Ali, já afirmou que não há intenção de apoiar Siegmund como governador.
Cenário político e possíveis alianças
A pressão internacional também influencia o cenário. A Alemanha tem sido alvo de críticas por permitir que um partido rotulado como extremista alcance posições de poder, especialmente em um contexto de tensão geopolítica com a Rússia.
Ao mesmo tempo, o governo federal busca equilibrar a necessidade de estabilidade interna com a defesa dos valores democráticos europeus. O chanceler Olaf Scholz ainda não se pronunciou oficialmente sobre a situação em Saxônia‑Anhalt.
Analistas apontam que a incapacidade de excluir a AfD do parlamento estadual pode sinalizar o fim da estratégia de isolamento que funcionou nas últimas décadas. Eles alertam que a exclusão completa pode gerar ressentimento e impulsionar ainda mais a radicalização.
Por outro lado, a resistência dos partidos tradicionais pode reforçar a legitimidade das instituições democráticas, mostrando que a sociedade ainda rejeita o discurso extremista. Essa dualidade cria um impasse difícil de ser resolvido nos próximos meses.
Em resumo, o futuro da governança em Saxônia‑Anhalt dependerá de negociações delicadas, da disposição dos partidos em romper ou manter o “firewall” e da capacidade da AfD de transformar seu apoio eleitoral em poder efetivo.
O que se espera agora são encontros de bastidores, acordos pontuais e, possivelmente, a criação de um governo de coalizão híbrida que consiga atender às demandas da população sem abrir mão dos princípios democráticos.








