Um estudo recente revelou que a maioria das grandes empresas brasileiras exagera na sua maturidade em inteligência artificial. O AI Reality Report, divulgado em 27 de outubro de 2024, analisou executivos de companhias que faturam mais de US$ 500 milhões. A pesquisa, conduzida pela Avanade em parceria com a Vanson Bourne, trouxe dados que desafiam discursos corporativos.
O panorama da maturidade em IA nas empresas brasileiras
Segundo o relatório, 79,6 % dos executivos entrevistados no Brasil acreditam que suas organizações se apresentam ao mercado como mais avançadas em IA do que realmente são. Esse número supera a média global, que gira em torno de 71 %.
Os respondentes foram selecionados entre 3.600 profissionais ao redor do mundo, dos quais 230 estavam no Brasil. Todos ocupam cargos de decisão em empresas com receita anual superior a US$ 500 milhões.
Os dados apontam ainda que 67 % dos gestores brasileiros percebem melhorias significativas na produtividade dos colaboradores graças à IA, número superior aos 59 % observados globalmente.
Descompasso entre discurso e prática
Apesar da confiança declarada, apenas 18 % das empresas ao redor do planeta afirmam ter remodelado efetivamente seus processos operacionais para integrar a IA. No Brasil, esse percentual é quase idêntico, indicando que a maioria ainda sobrepõe a tecnologia a fluxos antigos sem reestruturá‑los.
Por outro lado, 77 % dos entrevistados descrevem suas equipes como “estabelecidas”, “avançadas” ou “AI‑first”. Essa contradição evidencia um gap entre a percepção interna e a realidade prática.
- 79,6 % acreditam estar à frente;
- 18 % realmente remodelam processos;
- 77 % se consideram avançados.
Adriano Picchi Neves, presidente da Avanade Brasil, ressalta que o problema não é apenas o discurso, mas a incapacidade de transformar ambição em impacto mensurável.
Desafios na mensuração de resultados
Um dos achados mais críticos diz respeito à avaliação de retorno financeiro. No Brasil, 63,9 % das organizações ainda não calcularam formalmente o ROI da IA, nem submeteram esses números à revisão da área financeira ou dos conselhos executivos.
Além disso, 42,6 % dos gestores classificam projetos de IA como bem‑sucedidos mesmo quando entregam pouco valor ou quando os resultados não são medidos adequadamente.
Essas falhas de contabilização criam um ambiente onde o sucesso é auto‑declarado, dificultando a identificação de verdadeiros benefícios.
- 63,9 % sem cálculo de ROI;
- 42,6 % consideram projetos bem‑sucedidos sem métricas;
- 44,8 % relatam uso não verificado de respostas de IA pelos funcionários.
O estudo alerta ainda que 44,8 % dos gestores brasileiros perceberam que colaboradores utilizam respostas geradas por IA sem validar a precisão, um comportamento que pode gerar decisões equivocadas.
Caminhos para uma adoção efetiva
Para avançar, os especialistas recomendam três ações prioritárias. Primeiro, estabelecer métricas claras de desempenho e vinculá‑las ao orçamento da empresa.
Segundo, re‑desenhar fluxos de trabalho, colocando a IA no centro da operação ao invés de tratá‑la como um aditivo.
Terceiro, promover a cultura de verificação, incentivando que todos os usuários confirmem a veracidade das respostas antes de aplicá‑las.
Essas medidas visam fechar o hiato entre a percepção de maturidade e a entrega efetiva de valor.
Neves conclui que a verdadeira maturidade em IA surge quando a tecnologia altera a forma de tomada de decisão, otimiza o trabalho diário e gera valor mensurável para o negócio.
Em síntese, o AI Reality Report oferece um retrato realista da situação brasileira: há entusiasmo e reconhecimento de potencial, mas ainda falta disciplina, métricas e re‑engenharia de processos para transformar a IA em um diferencial competitivo sustentável.








