Nas eleições legislativas de 2024, Israel viu o partido Likud de Benjamin Netanyahu superar as previsões das pesquisas e conquistar 26 cadeiras no Knesset, enquanto o bloco de oposição ficou aquém da maioria necessária para formar governo.
O resultado, divulgado na manhã de 1º de novembro, gerou surpresa tanto entre analistas nacionais quanto internacionais, que esperavam uma vitória mais estreita para o governo.
Resultados das Eleições e o Impasse Parlamentar
O Likud, liderado por Netanyahu, obteve 26 dos 120 assentos disponíveis, cinco a mais do que o bloco Yeshar, comandado por Gadi Eisenkot, que chegou a aparecer à frente nas projeções de algumas sondagens.
Apesar do desempenho individual positivo, o bloco governista ficou com apenas 53 cadeiras, bem abaixo dos 61 necessários para garantir a maioria no parlamento.
A oposição, formada por quatro partidos coligados, somou 48 assentos, também insuficiente para assumir o comando sem alianças adicionais.
O cenário resultou em um impasse: nenhum dos dois blocos tem condições de apresentar um candidato capaz de formar governo dentro do prazo constitucional.
Essa situação é agravada pela presença de 19 deputados de partidos árabes, que atingiram um recorde histórico e agora detêm um papel decisivo nas negociações.
O presidente Isaac Herzog, cuja função costuma ser cerimonial, ressaltou a necessidade urgente de evitar novas eleições, pois o país enfrenta ameaças crescentes em múltiplas frentes.
- Likud – 26 cadeiras
- Yeshar – 22 cadeiras
- Partidos árabes – 19 cadeiras
- Outros partidos menores – 53 cadeiras distribuídas
Com o Knesset dividido, a lei israelense determina que o líder do partido mais votado seja convidado a montar um governo; caso falhe, a tarefa passa ao segundo colocado.
Até o momento, nenhum dos dois líderes conseguiu reunir apoio suficiente, o que eleva a probabilidade de novas eleições em poucos meses.
Desafios para Netanyahu e a Oposição
Netanyahu enfrenta um dilema: sem aliados claros, sua única saída plausível seria propor um governo de união nacional, envolvendo partidos que até então rejeitaram qualquer cooperação.
Tal proposta, porém, colide com a promessa firme da oposição de não se aliar a partidos árabes, mesmo que isso signifique abrir mão da maioria.
Para a oposição, a alternativa mais viável seria aceitar um acordo com os partidos árabes, mas isso poderia gerar forte reação de eleitores conservadores e de setores da sociedade israelense.
Além das questões internas, a liderança de Netanyahu ainda carrega o peso de críticas intensas após a guerra de outubro de 2023, que expôs vulnerabilidades de segurança e gerou perdas humanas significativas.
Mesmo assim, o ex‑primeiro‑ministro mantém uma base de apoio considerável, alimentada pelo medo de um governo mais fraco diante de ameaças como o Hamas, Hezbollah e o Irã.
Analistas apontam que a imagem de “Houdini do Oriente Médio” ainda atrai eleitores que acreditam na capacidade de Netanyahu de negociar acordos de segurança.
A oposição, por sua vez, tem que equilibrar a necessidade de formar governo com a pressão de seus eleitores para manter uma postura firme contra a integração de partidos árabes.
Essa tensão interna pode levar a rupturas dentro dos próprios blocos, dificultando ainda mais a formação de coalizações estáveis.
Enquanto isso, a comunidade internacional observa atentamente, temendo que a instabilidade política interna reduza a capacidade de Israel de responder a crises regionais.
Cenário Geopolítico e Perspectivas Futuras
O impasse político ocorre num momento em que Israel se vê cercado por adversários que se reagrupam, desde Gaza até o Irã, passando pelo Hezbollah no Líbano.
Qualquer atraso na formação de um governo forte pode ser interpretado como fraqueza, incentivando movimentos hostis a intensificar suas ações.
Além disso, há especulações nos corredores de Washington sobre a possibilidade de um novo ataque aéreo ao Irã, que dependeria da clareza de liderança em Tel Aviv.
Se o Knesset permanecer fragmentado, a política externa israelense pode ficar à mercê de decisões de curto prazo, comprometendo planos de longo prazo.
David Ben‑Gurion, fundador do Estado, já alertava que “Quem não acredita em milagres não é realista”; hoje, muitos veem a necessidade de um milagre político para desbloquear a situação.
Alguns especialistas sugerem que a solução poderia vir de um acordo de rotação de chefia, onde Netanyahu e Eisenkot compartilhem o cargo de primeiro‑ministro em períodos alternados.
Outros defendem a criação de um governo técnico, composto por especialistas não partidários, focado em segurança e economia até que as eleições sejam realizadas.
Entretanto, a viabilidade de um governo técnico depende da aceitação dos partidos árabes, que ainda não foram incluídos em negociações formais.
Enquanto as negociações se arrastam, a população israelense enfrenta incerteza econômica, com a moeda local oscilando e investidores estrangeiros adotando postura cautelosa.
O mercado de habitação, por exemplo, tem mostrado sinais de desaceleração, refletindo o medo de instabilidade política prolongada.
Em contrapartida, setores de defesa e tecnologia continuam a receber investimentos, pois a necessidade de manter a superioridade militar permanece como prioridade nacional.
O futuro próximo pode ainda reservar uma decisão judicial: o Supremo Tribunal de Israel tem sido acionado para determinar se a falta de maioria obriga a convocação de novas eleições.
Se o tribunal ordenar novas eleições, o calendário eleitoral será apertado, exigindo que os partidos mobilizem rapidamente suas bases.
Essa corrida contra o tempo pode favorecer partidos com estrutura organizacional robusta, como o Likud, que já demonstrou capacidade de mobilização rápida.
Por outro lado, partidos menores podem se beneficiar ao se posicionarem como alternativas frescas, atraindo eleitores cansados da polarização tradicional.
Independentemente do desfecho, a situação reforça a importância de reformas eleitorais que evitem impasses recorrentes e garantam maior estabilidade governamental.
Algumas propostas incluem a adoção de um sistema proporcional mais rígido ou a criação de um mecanismo de “governo de coalizão mínima” que obrigue alianças pré‑eleitorais.
Até que tais mudanças sejam debatidas, Israel continuará navegando em águas turbulentas, equilibrando segurança nacional e necessidade de governabilidade.
O que se espera, portanto, é que os líderes políticos encontrem um terreno comum antes que a fragilidade interna seja explorada por adversários externos.
Somente assim Israel poderá manter sua posição estratégica no Oriente Médio e evitar uma nova crise que poderia ter consequências globais.








