Os Estados Unidos intensificaram sua ofensiva contra o narcotráfico no Pacífico ao transformar a base aérea de Taura, no Equador, em um centro logístico avançado. A operação, que começou a ser observada em junho de 2024, envolve a instalação de estruturas temporárias, manutenção de aeronaves de grande porte e voos frequentes de apoio. A base está localizada a cerca de uma hora de Guayaquil, principal porto de saída de drogas para os EUA.
Expansão da infraestrutura em Taura
Imagens de satélite revelam dezenas de tendas modulares de montagem rápida espalhadas ao redor da pista, além de um grande hangar desmontável de aproximadamente 40 metros por 20 metros destinado à manutenção de aviões. A construção foi acompanhada pela remoção de metros de vegetação que cercavam a pista principal, facilitando a movimentação de veículos pesados. Três militares monitoram continuamente a entrada e saída de caminhões de construção que abastecem a base.
A pista da base de Taura ultrapassa os 3 mil metros, tornando‑se a mais longa do país e superando a do aeroporto internacional de Guayaquil. Essa extensão permite a operação de aeronaves de grande porte, como os cargueiros C‑130 Hércules e C‑17 Globemaster, que exigem áreas de decolagem e pouso amplas. A infraestrutura recém‑instalada inclui também áreas de armazenamento de combustível e depósitos de munição, reforçando a capacidade operacional da instalação.
Operações aéreas e rotas estratégicas
Os registros de voo analisados pela AFP mostram mais de 20 missões militares americanas entre junho e meados de outubro de 2024, conectando Taura a bases nos Estados Unidos e em territórios próximos. As rotas incluíram escalas em Porto Rico e no Panamá, além de ligações diretas com a base da Marinha dos EUA em Cherry Point, na Carolina do Norte, e a base aérea de Dover, em Delaware. Essas conexões facilitam o reabastecimento, a troca de inteligência e o apoio logístico entre os dois países.
- C‑130 Hércules – transporte de carga e tropas.
- C‑17 Globemaster – carga pesada e missões de longo alcance.
- V‑22 Osprey – aeronave híbrida de decolagem curta e pouso vertical.
- Helicóptero Black Hawk – apoio tático e evacuação médica.
Além dos aviões de carga, a presença de helicópteros Black Hawk indica a realização de missões de reconhecimento e apoio direto a unidades terrestres. Os voos foram descritos em documentos militares como “voos temporários de apoio”, sugerindo que a operação ainda está em fase de expansão e avaliação de eficácia. A frequência dos pousos e decolagens tem aumentado, sinalizando uma intensificação da atividade na região.
Reações políticas e questões legais
Em setembro de 2024, o então comandante da Força Aérea equatoriana, Mauricio Salazar, enviou uma carta exigindo esclarecimentos sobre a base legal para receber tropas estrangeiras sem violar a Constituição. Poucos dias depois, Salazar foi afastado do cargo e transferido para uma posição de menor patente, gerando suspeitas de retaliação política. O presidente equatoriano, Daniel Noboa, afirmou que a cooperação com os EUA, o Brasil e a União Europeia visa melhorar as pistas de pouso para operações conjuntas.
O referendo nacional que rejeitou a instalação de bases militares estrangeiras em 2023 parece estar em conflito direto com a presença crescente de forças americanas em Taura. Organizações de direitos humanos têm questionado a legalidade da operação e apontado para a falta de transparência nas negociações bilaterais. Enquanto isso, o Congresso equatoriano ainda não recebeu um relatório detalhado sobre o acordo de cooperação militar.
Contexto histórico e implicações futuras
A presença militar dos EUA no Equador não é nova; entre 1999 e 2009, o país manteve uma base em Manta, que serviu como ponto estratégico no combate ao tráfico de drogas. O encerramento daquele acordo ocorreu após denúncias de abusos cometidos por militares americanos, levantando dúvidas sobre os limites da intervenção estrangeira. Hoje, a nova fase em Taura ocorre com pouca divulgação pública, reforçando a necessidade de monitoramento por parte da sociedade civil.
Especialistas em segurança afirmam que a consolidação de Taura como hub logístico pode mudar significativamente o fluxo de cocaína que sai do Pacífico Sul rumo aos Estados Unidos. A capacidade de transportar rapidamente carga e pessoal entre a América do Sul e as bases norte‑americanas pode reduzir o tempo de resposta das forças de combate ao narcotráfico. Contudo, críticos alertam que a militarização do espaço aéreo equatoriano pode gerar tensões regionais e afetar a soberania nacional.
O futuro da cooperação entre Quito e Washington dependerá da evolução das negociações políticas internas e da eficácia das operações em campo. Caso os resultados sejam positivos, é provável que novos investimentos em infraestrutura sejam anunciados, ampliando ainda mais a presença americana no país. Por outro lado, pressões internas e externas podem levar a revisões contratuais ou até ao encerramento das atividades, caso a legalidade e a aceitação popular não sejam garantidas.








