Na última safra, que se estendeu até outubro de 2026, produtores do interior de São Paulo registraram aumento na colheita de laranja, mas enfrentam queda nas vendas de suco que tem pressionado os preços. O cenário se desenrola em cidades como Olímpia, Guaraci e outras regiões citrícolas do estado.
Crescimento da produção e desafios logísticos
Os citricultores relataram que a área plantada manteve-se estável, porém a produtividade por hectare subiu graças a técnicas de manejo mais eficientes. Lucas Ferrantes Fonseca, de Olímpia, espera colher cerca de 30 mil caixas de laranja‑pêra‑rio, o dobro da colheita do ano anterior.
Mesmo com a safra mais abundante, a logística de transporte ainda apresenta gargalos. Estradas rurais em mau estado aumentam o custo de deslocamento, e a falta de armazéns refrigerados eleva o risco de perdas pós‑colheita.
Além disso, o período de estiagem prolongada trouxe temperaturas acima da média, favorecendo o desenvolvimento da doença greening, que afetou mais de 12 mil pés nas regiões do Triângulo Mineiro e de São Paulo.
Queda na demanda de suco e impacto nos preços
Segundo Ibiapaba Netto, diretor‑executivo da CitrusBR, os últimos três anos de preços elevados provocaram uma retração de 30% a 40% no consumo de suco de laranja, tanto no mercado interno quanto no externo. O preço da caixa de 40 kg, que chegou a R$ 70, agora ronda R$ 33.
O produtor José Humberto Gazoni, de Guaraci, descreve que a caixa produzida por R$ 35 está sendo vendida por apenas R$ 22, o que não cobre os custos de produção, mão‑de‑obra e insumos.
Essa desvalorização tem reflexo direto na renda das famílias rurais, que dependem da indústria de suco para escoar a produção. Apesar do aumento do preço do suco pronto nas prateleiras, o volume vendido diminuiu, criando um paradoxo de mercado.
Estratégias dos produtores para enfrentar a crise
Para mitigar os efeitos da queda de demanda, alguns agricultores estão diversificando suas culturas ou adotando novos canais de comercialização. As principais ações incluem:
- Conversão parcial de pomares de laranja‑valência para mamoeiros, como fez Gazoni, buscando mercados alternativos.
- Participação em feiras regionais e vendas diretas ao consumidor final, reduzindo a dependência da indústria de suco.
- Investimento em tecnologia de pós‑colheita, como embalagens com atmosfera modificada, que prolongam a vida útil da fruta.
- Adesão a programas de certificação orgânica, que podem agregar valor e abrir portas para exportação.
Além das medidas individuais, associações de produtores têm pressionado o governo para a criação de linhas de crédito específicas e políticas de apoio à pesquisa de resistência ao greening.
Apesar dos desafios, a experiência de mais de cinco décadas no setor mantém a esperança de que o mercado se ajuste. Muitos acreditam que a retomada do consumo de suco, impulsionada por campanhas de saúde pública, poderá reverter a tendência de queda nos próximos anos.
O futuro da citricultura paulista dependerá, portanto, da capacidade de inovar, da adaptação a condições climáticas adversas e da construção de relações mais equilibradas entre produtores, indústrias e consumidores.








