Na manhã de segunda‑feira, 26 de outubro de 2024, o índice Ibovespa despencou mais de 13% na B3, provocando o acionamento do mecanismo de proteção conhecido como circuit breaker. A queda abrupta refletiu a reação negativa dos investidores à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, gerando perdas recordes entre os investidores mais ricos do país.
Impacto imediato no Ibovespa e acionamento do circuit breaker
O “circuit breaker” é um gatilho automático que interrompe as negociações quando o índice cai mais de 10% em poucos minutos, evitando pânico excessivo. No pregão de 26/10, o Ibovespa recuou 10,2% nos primeiros minutos, forçando a suspensão temporária das operações. Quando o mercado retomou, o índice continuou em queda, encerrando o dia em 176.608 pontos, equivalente a uma perda de 13,88%.
Essa queda abrupta foi impulsionada principalmente pela incerteza política e pelas expectativas de mudanças nas políticas econômicas. Analistas apontam que a volatilidade aumentou porque investidores estrangeiros revisaram suas posições diante das perspectivas de inflação e de políticas fiscais.
Perdas concentradas entre os bilionários do setor bancário
De acordo com o Índice de Bilionários da Bloomberg, os dez brasileiros mais ricos perderam, coletivamente, US$ 14 bilhões (cerca de R$ 75,6 bilhões) em apenas um dia. Essa foi a maior perda diária conjunta desde que o levantamento começou, em 2012.
Os maiores impactos foram sentidos por fundadores e acionistas de grandes bancos, cujas ações registraram quedas acentuadas. A desvalorização das ações bancárias reduziu significativamente a fortuna de figuras como André Esteves, David Vélez e os irmãos Pedro e Fernando Moreira Salles.
- André Esteves (BTG Pactual) – perda de US$ 3,7 bi
- David Vélez (Nubank) – perda de US$ 2,3 bi
- Pedro Moreira Salles (Itaú Unibanco) – perda de US$ 1,6 bi
- Fernando Moreira Salles (Itaú Unibanco) – perda de US$ 1,4 bi
- João Moreira Salles – perda de US$ 0,7 bi
- Walter Moreira Salles – perda de US$ 0,5 bi
- Outros bilionários do setor financeiro – perda combinada de US$ 4,8 bi
Somadas, as fortunas desses quatro magnatas bancários sofreram uma redução aproximada de 16% em apenas 24 horas. Após a queda, o patrimônio conjunto dos principais acionistas do setor bancário ficou em US$ 45,6 bilhões (R$ 246,38 bilhões).
Desempenho das principais ações e setores mais afetados
Além dos bancos, empresas de varejo, consumo e saúde foram duramente atingidas. A Magazine Luiza liderou a lista de quedas, recuando 58,23%, seguida por Vamos (56,79%) e Hapvida (54,93%).
Os setores de consumo e varejo sofreram pressão porque os investidores temiam uma desaceleração da demanda interna. O mercado imobiliário também registrou quedas, refletindo temores de aumento das taxas de juros.
- Magazine Luiza – -58,23%
- Vamos – -56,79%
- Hapvida – -54,93%
- Petrobras – -31,12%
- Vale – -28,45%
- Banco do Brasil – -27,31%
- Bradesco (PN) – -21,70%
- Bradesco (ON) – -20,65%
- BTG Pactual – -24,83%
- Itaú Unibanco – -13,66%
Os chamados “blue chips”, que compõem a maior parte do Ibovespa, foram responsáveis por arrastar o índice para baixo. Enquanto Petrobras e Vale apresentaram quedas superiores a 28%, os bancos sofreram recuos entre 13% e 27%.
Repercussões cambiais e efeito na conversão de fortunas
Ao mesmo tempo em que as ações despencavam, o real se desvalorizou frente ao dólar, ampliando o impacto nas fortunas dos bilionários quando convertidas para a moeda americana. O dólar fechou a segunda‑feira em alta de 8,21%, cotado a R$ 5,4027.
Essa depreciação cambial acrescentou mais R$ 10 bilhões ao total de perdas registradas pelos mais ricos, pois grande parte de seus ativos está atrelada a investimentos internacionais ou a receitas em dólares.
Perfil dos principais bilionários afetados
André Esteves, fundador do BTG Pactual, viu sua fortuna cair de US$ 12 bilhões para US$ 8,3 bilhões, refletindo a queda de 24% em seu patrimônio pessoal. A desvalorização das ações do banco foi a principal responsável por essa perda.
David Vélez, colombiano que controla o Nubank, viu seu patrimônio reduzir em US$ 2,3 bilhões, apesar de sua empresa ainda ser considerada uma das fintechs mais valiosas da América Latina. A volatilidade das ações do Nubank, combinada com a queda do real, foi decisiva.
Os irmãos Pedro e Fernando Moreira Salles, acionistas de longa data do Itaú Unibanco, perderam juntos cerca de US$ 3 bilhões. A família Moreira Salles, considerada a mais rica do Brasil, possui ainda investimentos diversificados em mineração, moda e outros setores.
João e Walter Moreira Salles, que se desvincularam do Itaú em 2022, foram impactados indiretamente. Seus investimentos em uma empresa privada de mineração e na Alpargatas (fabricante das sandálias Havaianas) sofreram perdas combinadas de US$ 1,2 bilhão.
Esses números mostram como a concentração de riqueza em poucos setores pode amplificar os efeitos de uma crise de mercado. Quando o índice principal sofre um choque, o reflexo nas fortunas individuais pode ser devastador.
Perspectivas para o mercado brasileiro
Especialistas apontam que o mercado ainda pode enfrentar volatilidade nas próximas semanas, especialmente se houver novas incertezas políticas ou econômicas. A expectativa é que o Banco Central mantenha a política monetária restritiva para conter a inflação.
Entretanto, alguns analistas veem oportunidades de compra em ações que foram excessivamente penalizadas, como Magazine Luiza e Hapvida, que podem se recuperar se a confiança dos investidores voltar.
O próximo ciclo de negociações será observado de perto pelos investidores estrangeiros, que costumam reagir rapidamente a mudanças nas políticas fiscais e ao desempenho do real.
Em resumo, a queda histórica do Ibovespa não apenas acionou o mecanismo de proteção da bolsa, mas também provocou a maior perda diária conjunta de bilionários brasileiros desde 2012, ressaltando a interdependência entre política, mercado e riqueza concentrada.








