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AfD pode conquistar primeiro governo estadual de extrema‑direita na Alemanha desde 1945

Neste domingo, 6 de outubro, os eleitores da Saxônia‑Anhalt, estado localizado no centro‑leste da Alemanha, vão decidir se a Alternativa para a Alemanha (AfD) assumirá pela primeira vez o comando de um governo estadual desde o fim da Segunda Guerra Mundial. As pesquisas recentes apontam o partido de extrema‑direita como favorito, com cerca de 43 % das intenções de voto, superando a tradicional CDU.

Cenário político e a ascensão da AfD

Fundada em 2013 como um movimento eurocético, a AfD passou por uma radicalização profunda a partir da crise dos refugiados de 2015, quando a guerra na Síria provocou um grande fluxo migratório para a Europa. Esse momento marcou a transição do partido para uma plataforma nacionalista, focada na restrição da imigração e na crítica ao establishment político.

Na Saxônia‑Anhalt, região que integrou a antiga Alemanha Oriental, o sentimento de abandono econômico e social tem sido um terreno fértil para o discurso da AfD. Desde a reunificação, o estado enfrenta fechamento de indústrias, êxodo de jovens para o oeste e um dos menores PIBs per capita do país, fatores que alimentam a desconfiança em relação aos partidos tradicionais.

Os números das pesquisas, divulgados pelo instituto Insa e encomendados pelo portal Nius, mostram que a AfD lidera com folga: 43 % dos eleitores pretendem votar no partido, enquanto a CDU, liderada por Sven Schulze, registra apenas 22 %. Esse diferencial coloca o partido em posição de negociar coalizões, embora os demais grupos parlamentares tenham descartado a possibilidade de aliar‑se à extrema‑direita.

Perfil de Ulrich Siegmund e a campanha nas redes

Ulrich Siegmund, de 35 anos, é o candidato principal da AfD na região. Deputado estadual e ex‑funcionário do setor de perfumes, Siegmund construiu sua projeção política principalmente nas redes sociais, onde publica vídeos agressivos contra a imigração, defende uma identidade nacional rígida e critica duramente a imprensa.

A estratégia de campanha de Siegmund combina informalidade e presença direta: ele costuma tirar selfies, assinar camisetas e até servir cerveja em eventos ao ar livre. Essa abordagem tem atraído eleitores jovens e descontentes, que veem no candidato uma figura mais acessível que os políticos tradicionais.

A revista “Der Spiegel”, uma das mais influentes da Alemanha, destacou Siegmund na capa com o título “o homem mais perigoso da Alemanha”, reforçando a atenção nacional e internacional que o candidato tem recebido.

Desafios e implicações de uma possível vitória

Mesmo que a AfD conquiste a maior bancada nas eleições, isso não garante automaticamente a maioria absoluta no Parlamento estadual. O governador é eleito pelos deputados, e a recusa dos outros partidos em formar coalizão com a extrema‑direita pode impedir que Siegmund assuma o cargo.

O programa de governo da AfD inclui medidas consideradas nacionalistas e em contramão das políticas de integração vigentes. Entre as propostas estão o aumento das deportações de requerentes de asilo rejeitados, a criação de turmas separadas nas escolas para imigrantes e crianças com necessidades especiais, e o corte de verbas a projetos rotulados como “não alemães” ou “antialemães”.

  • Aumento das deportações de requerentes de asilo;
  • Separação de turmas escolares para imigrantes e alunos com necessidades especiais;
  • Cancelamento de concessões de emissoras públicas no estado;
  • Retirada de financiamento de projetos considerados “antialemães”.

Desde 2023, o braço da AfD na Saxônia‑Anhalt foi classificado pelo serviço de inteligência estadual como organização extremista de direita, o que eleva o nível de vigilância e debate sobre a legalidade de suas ações. Dirigentes do partido são acusados de adotar posições incompatíveis com a Constituição alemã, alimentando um clima de tensão política.

A possível ascensão da AfD a um governo estadual tem repercussões que vão além das fronteiras alemãs. Observadores europeus temem que o sucesso da extrema‑direita em um estado federado possa inspirar movimentos semelhantes em outros países, reforçando narrativas anti‑imigração e nacionalistas.

Ao mesmo tempo, a campanha de Siegmund evidencia o poder das redes sociais na mobilização política contemporânea. Vídeos curtos, linguagem coloquial e a presença constante em plataformas como TikTok e Instagram têm sido decisivos para transformar um candidato regional em um símbolo de resistência contra o establishment.

Se a AfD conseguir formar governo, enfrentará o desafio de transformar promessas radicais em políticas concretas, lidando com limitações orçamentárias e a necessidade de aprovação legislativa. A resistência dos partidos opositores e a pressão da sociedade civil provavelmente gerarão impasses e debates intensos nos próximos meses.

Independentemente do resultado, o domingo de 6 de outubro marcará um ponto de inflexão na história política da Alemanha pós‑guerra, ao colocar em evidência a força crescente de movimentos de extrema‑direita em regiões que ainda carregam as cicatrizes da divisão entre Leste e Oeste.

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