Na noite de domingo, 18 de outubro, a peça “Fim de Partida”, encenada no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, foi interrompida após uma falha de acessibilidade envolvendo a intérprete de Libras. O incidente gerou protestos de espectadores surdos e ouvintes, que deixaram o salão em sinal de insatisfação. O ator Marco Nanini, protagonista da montagem, se pronunciou publicamente para esclarecer os fatos e pedir desculpas.
Contexto da montagem e da controvérsia
A produção de “Fim de Partida” traz ao palco a obra de Samuel Beckett, que exige precisão técnica e sensibilidade artística. O espetáculo é conhecido por sua caixa cênica reduzida, iluminação minimalista e a presença de um personagem cego, interpretado por Nanini, que permanece em cadeira de rodas durante grande parte da encenação. Essa estrutura cria um ambiente intimista, mas também vulnerável a qualquer alteração na iluminação ou no posicionamento de elementos externos.
Desde a estreia, a equipe de produção enfatizou a importância da acessibilidade, incluindo intérpretes de Libras em todas as sessões. A presença desses profissionais foi anunciada como parte integral do espetáculo, com a promessa de garantir visibilidade plena sem comprometer a estética da montagem. No entanto, no domingo passado, a situação se transformou em ponto de tensão quando a intérprete precisou mudar de posição para evitar sombras indesejadas.
Detalhes técnicos que levaram à interrupção
De acordo com a declaração de Marco Nanini, a caixa cênica de “Fim de Partida” utiliza um jogo permanente de luz e sombra, onde cada feixe tem um propósito narrativo específico. A intérprete, ao se posicionar na zona de projeção, acabou projetando sombras sobre o cenário, interferindo tanto na iluminação planejada quanto na visão do ator em cena. “Cada detalhe importa para o que acontece em cena. No domingo, infelizmente, a posição da intérprete de Libras começou a projetar sombras no cenário”, explicou o artista.
Quando a interferência se tornou perceptível, a produção tentou realocar a intérprete para outro ponto do palco, mas a negociação não chegou a um consenso rápido. A falta de um acordo imediato fez com que a cena fosse suspensa, gerando confusão e insatisfação no público presente. A situação escalou rapidamente, resultando em vaias, protestos e até xingamentos, conforme relatado pelo jornalista Roger Lerina.
Reações do público e posicionamento da produção
Os espectadores surdos foram os primeiros a abandonar a sala, alegando que a interrupção comprometia o acesso à peça. Muitos ouvintes, solidários, também deixaram o teatro, aumentando a pressão sobre a equipe de produção. Lerina destacou que a falha técnica foi reconhecida tanto pela produção quanto pela Fundação Theatro São Pedro, que admitiram a necessidade de ajustes nos ensaios técnicos de acessibilidade.
Em seu comunicado no Instagram, Nanini destacou que a equipe sempre buscou organizar a presença dos intérpretes de forma a não interferir nos elementos visuais da montagem. Ele reforçou que, em temporadas anteriores, o posicionamento dos profissionais de Libras foi planejado com cuidado, preservando a integridade da obra. Contudo, ele admitiu que, naquele domingo, a situação não foi conduzida da maneira mais sensível.
- Posicionamento inadequado da intérprete gerou sombras no cenário;
- Interferência na iluminação comprometeu a visão do ator;
- Negociação de novo local não foi concluída a tempo;
- Interrupção provocou protestos e saída de público surdo e ouvinte;
- Produção reconheceu falha e prometeu aprimoramento técnico.
Desculpas públicas e compromissos futuros
Marco Nanini enfatizou que a exclusão do público surdo jamais foi a intenção da equipe. “Quero deixar muito claro que essa nunca foi nossa intenção. Reconheço que, naquele momento, a situação poderia ter sido conduzida de forma mais sensível e empática, e peço desculpas ao público surdo e a todos os presentes”, escreveu o ator. Ele destacou que a acessibilidade não é um detalhe, mas parte integrante do espetáculo.
Além do pedido de desculpas, Nanini anunciou que a Pequena Central – responsável pela produção – adotará medidas rigorosas nos ensaios técnicos prévios. A equipe pretende trabalhar em conjunto com tradutores de Libras para garantir que futuras sessões sejam totalmente acessíveis, sem comprometer a estética da montagem. O ator também se comprometeu a levar a discussão sobre acessibilidade a toda a classe teatral, transformando o erro em aprendizado para o setor.
O incidente reacendeu o debate sobre a inclusão no teatro brasileiro, reforçando a necessidade de protocolos claros e treinamentos específicos para lidar com a presença de intérpretes em ambientes de alta complexidade técnica. Especialistas apontam que a integração de Libras deve ser planejada desde a concepção do projeto, e não como um ajuste de última hora.
Para o público surdo, a situação representa mais um exemplo de como a falta de planejamento pode gerar exclusão cultural. Organizações de defesa dos direitos de pessoas com deficiência têm cobrado maior responsabilidade das instituições culturais, exigindo transparência e comprometimento real com a acessibilidade.
Ao final da declaração, Nanini reforçou que a produção vai rever todos os procedimentos de montagem, iluminação e posicionamento de intérpretes. Ele concluiu que a experiência servirá de lição para que outros espetáculos evitem erros semelhantes e, assim, promovam um teatro verdadeiramente inclusivo.








