O Brasil continua sem alcançar a meta de 95% de cobertura vacinal contra o sarampo, mesmo após a declaração de livre circulação endêmica em novembro de 2024. Em 2026, o país registra mais de 50 casos importados, enquanto na fronteira oeste do Amazonas há intensificação da vacinação devido ao aumento de casos no Peru e na Bolívia. O cenário exige ação urgente das autoridades de saúde para evitar novos surtos.
Desafio da cobertura vacinal no território nacional
Desde 2016, o Brasil tem registrado a melhor taxa de vacinação contra o sarampo, mas ainda está abaixo do patamar considerado seguro pelos especialistas. A meta de 95% de crianças menores de dois anos com duas doses da tríplice viral não foi atingida em nenhum estado. Essa taxa é essencial para impedir a circulação sustentada de um vírus que pode infectar até 90% das pessoas expostas.
A primeira dose da vacina oferece entre 94% e 96% de proteção, enquanto a segunda eleva a eficácia para mais de 97%. Contudo, a cobertura completa – duas doses – está abaixo de 80% em todo o país, o que gera preocupação diante do avanço da doença em países vizinhos.
Especialistas alertam que a baixa adesão pode criar bolsões de vulnerabilidade, permitindo que casos importados se transformem em surtos locais. O diretor do Departamento Nacional de Imunizações (DPNI), Eder Gatti, destaca que a vacinação deve ser homogênea em todo o território para evitar esses focos de risco.
Situação dos estados e comparativo histórico
Os índices de cobertura vacinal variam significativamente entre as unidades federativas. Em 2024, os estados que lideraram a campanha foram Ceará (86,69%), Paraná (86,76%) e Minas Gerais (86,05%). Já os piores resultados foram registrados no Amapá (63,59%), Pará (67,02%), Maranhão (69,66%) e Rio de Janeiro (69,74%).
Em 2025, o panorama mudou levemente: Paraná avançou para 89,92%, Minas Gerais para 87,62%, Rondônia alcançou 84,56% e o Distrito Federal 84,03%. Ainda assim, Pará (58,25%), Goiás (58,59%) e Amapá (63,02%) permaneceram com as menores coberturas.
- Estados com melhores índices (2024): Ceará – 86,69%; Paraná – 86,76%; Minas Gerais – 86,05%.
- Estados com piores índices (2024): Amapá – 63,59%; Pará – 67,02%; Maranhão – 69,66%; Rio de Janeiro – 69,74%.
- Melhores índices (2025): Paraná – 89,92%; Minas Gerais – 87,62%; Rondônia – 84,56%; Distrito Federal – 84,03%.
- Piores índices (2025): Pará – 58,25%; Goiás – 58,59%; Amapá – 63,02%.
Esses números revelam que, embora alguns estados tenham melhorado, a maioria ainda está distante da meta ideal. A disparidade regional dificulta a criação de uma barreira imunológica nacional.
Risco de novos surtos e medidas de prevenção
Em 2025, o Brasil registrou 39 casos de sarampo, e em 2026 o número já ultrapassou 50, conforme o infectologista Renato Kfouri, vice‑presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). A maioria dos casos recentes ocorreu em São Paulo, principalmente na capital, evidenciando a vulnerabilidade mesmo em áreas com infraestrutura de saúde avançada.
Ao mesmo tempo, países vizinhos apresentam explosões alarmantes: o Peru contabiliza cerca de 3 mil casos, e a Bolívia também vive um cenário de descontrole. Nos Estados Unidos, mais de 3,6 mil casos foram confirmados em 2026, levando Nova Iorque a declarar estado de emergência.
O risco de novos surtos no Brasil está diretamente ligado à importação de casos e à existência de áreas com cobertura vacinal insuficiente. Kfouri explica que, quando a taxa ultrapassa 95%, os casos importados tendem a ser isolados, sem gerar transmissão sustentada. Contudo, “bolsões de baixa cobertura podem ter o mesmo efeito da cobertura geral não ideal”, enfatiza o especialista.
Para conter a propagação, o Ministério da Saúde está reforçando a vigilância epidemiológica e intensificando campanhas de vacinação com a tríplice viral nas cidades fronteiriças, especialmente na região oeste do Amazonas. A estratégia inclui a realização de mutirões de vacinação, a mobilização de agentes comunitários de saúde e a comunicação direcionada para comunidades de difícil acesso.
Além das ações governamentais, a participação da sociedade civil é crucial. Campanhas de conscientização nas redes sociais, parcerias com escolas e a oferta de vacinas em unidades de saúde de horário estendido são medidas que podem elevar a adesão. A mensagem central deve ressaltar que a vacinação completa protege não só a criança, mas toda a comunidade.
O último caso autóctone de sarampo no Brasil foi registrado em junho de 2022, no estado do Amapá. Embora esse episódio indique que a transmissão interna está controlada, a ameaça permanece viva devido ao fluxo constante de viajantes e à presença de grupos vulneráveis que ainda não foram plenamente imunizados.
Em síntese, o Brasil precisa acelerar a cobertura vacinal, uniformizar os índices entre os estados e manter a vigilância ativa para evitar que casos importados evoluam para novos surtos. A combinação de políticas públicas eficazes, engajamento da população e monitoramento constante é a chave para preservar a conquista de ser considerado livre da circulação endêmica do sarampo.








