Em 2024, o portal g1 celebra duas décadas de cobertura sobre os avanços da imunoterapia no combate ao câncer, trazendo à tona histórias marcantes como a de Gilson e Vilma Zago. O casal enfrentou tumores de pele agressivos em momentos diferentes da vida, revelando como a ciência mudou o destino de pacientes que antes tinham poucas opções. Essa reportagem analisa o que mudou, quando ocorreram as descobertas e onde a luta contra o câncer se intensifica hoje.
O diagnóstico precoce e a descoberta inesperada
Vilma Zago acompanhava o marido ao dermatologista para controlar a cicatrização de uma lesão na perna, quando percebeu um pequeno nódulo na virilha esquerda, do tamanho de uma bola de gude. Ao pressionar o ponto, notou que ele subia e descia sob a pele, um sinal que, embora sutil, não pode ser ignorado.
O médico, atento, realizou uma punção com agulha fina no local e enviou o material ao laboratório. A primeira análise não revelou anormalidades, mas a persistência da equipe levou à retirada completa da lesão uma semana depois, sob anestesia local.
O laudo trouxe um diagnóstico raro: carcinoma de células de Merkel, um tipo de câncer de pele altamente agressivo e pouco conhecido pela população geral. Nem Vilma nem Gilson tinham ouvido falar da doença antes da consulta, o que evidenciou a importância de exames detalhados mesmo para sinais aparentemente menores.
O casal, casado desde 1973, já havia passado por outra experiência dolorosa: Gilson, aos 57 anos, descobriu um melanoma avançado que já havia atingido linfonodos cervicais. Naquela época, a medicina ainda não dispunha das ferramentas imunológicas que transformariam o tratamento oncológico nos anos seguintes.
A evolução da imunoterapia e o Nobel de 2018
Nos primeiros anos do século XXI, a oncologia ainda se concentrava em três pilares: cirurgia, radioterapia e quimioterapia. As terapias-alvo eram poucas, como o imatinibe para leucemia mieloide crônica e o trastuzumabe para tumores de mama HER2‑positivos, mas faltava um agente capaz de mobilizar o próprio sistema imunológico contra o câncer.
Foi nesse cenário que pesquisadores começaram a investigar os chamados “checkpoints” imunológicos, proteínas que regulam a resposta das células T. A descoberta de que bloquear essas moléculas poderia reativar a defesa natural do organismo foi revolucionária.
Em 2018, James P. Allison e Tasuku Honjo receberam o Nobel de Fisiologia ou Medicina por suas contribuições ao desenvolvimento dos inibidores de checkpoint, como o pembrolizumabe e o nivolumabe. Esses fármacos transformaram doenças antes consideradas sentenças de morte em condições crônicas manejáveis.
Para Gilson, que já havia passado pela cirurgia e monitoramento rígido, a imunoterapia representou uma esperança tardia. Embora não tenha sido elegível aos novos inibidores de checkpoint na época, ele recebeu interferon e interleucinas, terapias que provocavam fortes reações semelhantes a gripes prolongadas, com toxicidade elevada e benefícios incertos.
Mesmo assim, Gilson conseguiu permanecer livre de recorrência, um feito raro considerando que, segundo dados da época, mais de 90 % dos melanomas com comprometimento ganglionar retornavam. Sua história ilustra a transição de um tratamento paliativo para uma abordagem mais direcionada e menos invasiva.
- 2006 – Cirurgias extensas ainda eram a primeira linha de tratamento.
- 2011 – Aprovação dos primeiros inibidores de checkpoint (ipilimumabe).
- 2018 – Nobel reconhece a importância dos bloqueadores de PD‑1/PD‑L1.
- 2022 – Combinações de imunoterapia com radioterapia aumentam taxas de resposta.
Esses marcos demonstram como a ciência avançou rapidamente, oferecendo novas opções para pacientes que antes tinham poucas esperanças. A imunoterapia, agora parte integrante dos protocolos oncológicos, tem ampliado a sobrevida e melhorado a qualidade de vida de milhares de brasileiros.
Desafios financeiros e o futuro do tratamento oncológico
Apesar dos benefícios clínicos, os custos dos medicamentos imunoterápicos permanecem um obstáculo gigantesco. No Brasil, o preço de um ciclo completo de pembrolizumabe pode ultrapassar centenas de milhares de reais, colocando o tratamento fora do alcance de grande parte da população.
Os sistemas de saúde públicos e privados enfrentam dificuldades para negociar preços justos, enquanto pacientes e famílias buscam alternativas como programas de acesso expandido ou ensaios clínicos. Essa realidade cria uma disparidade que pode comprometer a equidade no acesso às inovações médicas.
Especialistas apontam que a sustentabilidade do sistema de saúde dependerá de políticas públicas que incentivem a produção nacional de biossimilares e a regulação de preços. Além disso, a adoção de estratégias de tratamento personalizado, baseada em biomarcadores, pode otimizar recursos ao direcionar a terapia apenas para quem realmente se beneficiará.
O futuro da oncologia parece promissor, com pesquisas em andamento focando em novas gerações de inibidores de checkpoint, vacinas terapêuticas e terapias celulares como CAR‑T. Cada avanço traz a esperança de tratamentos ainda mais eficazes e, potencialmente, mais acessíveis.
Entretanto, a comunidade médica concorda que o desafio não é apenas científico, mas também econômico e social. Garantir que as descobertas que salvaram vidas, como as de Allison e Honjo, cheguem a todos os pacientes requer um esforço conjunto entre governo, indústria farmacêutica e sociedade civil.
Enquanto isso, histórias como a de Gilson e Vilma Zago continuam a inspirar. Elas lembram que o diagnóstico precoce, a vigilância constante e a busca por novas opções terapêuticas são fundamentais para transformar o câncer de sentença de morte em uma condição gerenciável.








