Megan Harmes, de 24 anos, relata que o uso contínuo de cetamina desde os 14 anos provocou danos graves à bexiga, obrigando-a a usar absorventes para incontinência. Ela iniciou o tratamento de reabilitação em março de 2024, na clínica Birchwood, localizada em Flint, no norte do País de Gales. O caso tem chamado atenção para o aumento de jovens que buscam a droga e para a necessidade de serviços adaptados.
O início do consumo e a escalada da dependência
Harmes experimentou a cetamina pela primeira vez aos 14 anos, quando ainda era estudante do ensino fundamental. Na época, a droga era consumida em festas clandestinas e era vista como um “passatempo” entre os colegas. O acesso à substância tornou‑se ainda mais fácil durante o confinamento imposto pela pandemia de Covid‑19, quando o preço da cetamina despencou no mercado negro.
Ao iniciar o ensino técnico em engenharia aeronáutica, Megan passou a usar a droga como forma de lidar com a ansiedade e com o TDAH. Ela descreve que, nos primeiros meses, a cetamina “reprimia” a hiperatividade e permitia que ela se concentrasse nas tarefas escolares. No entanto, o efeito paliativo rapidamente deu lugar a uma necessidade crescente, levando‑a a consumir a substância “o dia inteiro, todos os dias”.
Com o avanço da pandemia, o trabalho remoto fez com que Megan perdesse a rotina estruturada. O isolamento social aumentou a pressão psicológica, e a cetamina passou a ser o principal recurso para manter a energia e a vigilância durante longas jornadas de estudo. Em poucos anos, o consumo diário evoluiu para um padrão de dependência física e psicológica.
Consequências físicas e o impacto na vida cotidiana
Os efeitos adversos da cetamina sobre a bexiga são bem documentados na literatura médica. O uso crônico pode causar cistite ulcerativa, diminuição da capacidade vesical e, em casos graves, necessidade de cateterismo permanente. Megan começou a notar sintomas de urgência urinária aos 20 anos, mas ignorou o problema até que a incontinência se tornou constante.
Hoje, aos 22 anos, ela relata a necessidade de usar absorventes ou fraldas descartáveis para evitar vazamentos. “Ter que usar fraldas aos 22 anos acaba com a dignidade de qualquer pessoa”, afirma Megan, ressaltando o impacto emocional do quadro. A situação gerou vergonha, isolamento social e agravamento da depressão.
Além dos danos à bexiga, o consumo excessivo de cetamina provocou perda de oportunidades acadêmicas e profissionais. Megan perdeu a vaga de aprendiz em engenharia aeronáutica e, posteriormente, aceitou um emprego noturno que exigia vigília constante. O uso da droga para permanecer acordada durante turnos noturnos intensificou ainda mais a dependência.
- Em 2021, a Kaleidoscope recebeu apenas 2 encaminhamentos para tratamento de cetamina.
- Em 2024, esse número já ultrapassou 112, com a maioria dos pacientes entre 18 e 24 anos.
- A cetamina foi reclassificada como droga da classe B no Reino Unido em 2014.
- No Brasil, a escetamina tem uso restrito a estabelecimentos de saúde, com aprovação da Anvisa em 2020 para spray nasal.
Esses dados demonstram um crescimento alarmante de jovens que buscam a substância, muitas vezes sem acompanhamento médico. A pesquisa da Universidade do Sul do País de Gales aponta que os danos surgem mais rapidamente que os associados ao álcool ou a drogas da classe A, o que exige respostas rápidas dos sistemas de saúde.
Desafios e perspectivas do tratamento de reabilitação
Em março de 2024, Megan ingressou no programa de reabilitação da Kaleidoscope, que inclui desintoxicação, terapia cognitivo‑comportamental e suporte de animais de terapia. O centro Birchwood conta com três cães treinados que ajudam a reduzir a ansiedade e a melhorar a adesão ao tratamento.
Durante as primeiras quatro semanas, Megan relata melhora física, com redução da frequência urinária e maior energia para atividades diárias. No entanto, ainda não há consenso sobre a reversibilidade total dos danos à bexiga, e os médicos continuam monitorando a função vesical por meio de exames de ultrassom e cistoscopia.
O programa também inclui sessões de educação sobre os riscos da cetamina, apoio psicológico para transtornos de personalidade borderline e TDAH, e encaminhamento para serviços de inserção profissional. Megan espera, ao final do tratamento, retomar uma carreira na engenharia, embora reconheça que o caminho será longo.
Especialistas apontam que os serviços de tratamento tradicionalmente voltados a adultos precisam ser reconfigurados para atender jovens adultos. Isso inclui a criação de ambientes menos institucionalizados, uso de tecnologia digital para acompanhamento e a presença de profissionais especializados em saúde mental adolescente.
O caso de Megan serve como alerta para políticas públicas que ainda não contemplam a crescente demanda por tratamento de dependência de cetamina entre jovens. A necessidade de investimento em prevenção nas escolas, treinamento de professores para identificar sinais de uso e a ampliação de unidades de tratamento são medidas apontadas por pesquisadores.
Em entrevista recente, a diretora da Kaleidoscope destacou que a colaboração entre serviços de saúde mental, urologia e assistência social é essencial para oferecer um cuidado integral. “Precisamos de protocolos que considerem tanto os danos físicos quanto os traumas psicológicos”, afirmou.
Enquanto isso, Megan continua sua jornada de recuperação, compartilhando sua história nas redes sociais para conscientizar outras pessoas sobre os perigos da cetamina. Ela enfatiza que “agora que estou sóbria, sou muito hiperativa, mas a droga já não controla mais nada”.
O futuro ainda traz incertezas, mas a determinação de Megan e o suporte de profissionais especializados oferecem esperança de que a dignidade e a saúde possam ser reconquistadas.








