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Terapia hormonal na menopausa: entenda os reais riscos e por que o medo pode ser exagerado

Em fevereiro de 2024, a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos alterou a rotulagem de seis medicamentos usados na terapia hormonal da menopausa (THM), retirando o alerta mais severo sobre câncer de mama, doenças cardiovasculares e demência. A mudança, anunciada nos EUA, tem repercussão no Brasil, onde ainda há dúvidas e temores entre pacientes e profissionais de saúde. O objetivo desta reportagem é esclarecer o que realmente se sabe sobre os benefícios e riscos da THM e por que o medo pode estar superestimado.

O que é a terapia hormonal da menopausa e como funciona

A terapia hormonal da menopausa consiste na reposição de estrogênio, isoladamente ou combinado com progesterona, para aliviar os sintomas do climatério e da pós‑menopausa. Os sintomas mais comuns incluem ondas de calor, suores noturnos, irritabilidade, secura vaginal e alterações de humor. A indicação varia de acordo com a idade, tempo desde a última menstruação e histórico de saúde da mulher.

Quando a mulher ainda tem útero, a combinação de estrogênio e progesterona é recomendada, pois a progesterona protege o endométrio do estímulo proliferativo do estrogênio. Já nas mulheres que já passaram por histerectomia, pode ser usado apenas o estrogênio.

Além do alívio dos sintomas, a THM pode trazer benefícios adicionais, como prevenção da osteoporose, melhora da saúde cardiovascular em mulheres jovens e redução do risco de colapso da camada de proteção da mucosa vaginal.

Riscos associados ao uso de hormônios

Os principais receios giram em torno do risco de câncer de mama, câncer de útero e eventos cardiovasculares. Estudos mais antigos, publicados no início dos anos 2000, sugeriram um aumento do risco de câncer de mama com o uso prolongado de estrogênio sem progesterona. No entanto, pesquisas posteriores identificaram falhas metodológicas nesses trabalhos e mostraram que o risco absoluto é pequeno quando a terapia é iniciada em idade precoce na pós‑menopausa e usada por períodos curtos.

Para o câncer de útero, o uso isolado de estrogênio pode estimular o crescimento do endométrio, aumentando o risco de hiperplasia e, em casos raros, de carcinoma. A adição de progesterona neutraliza esse efeito, razão pela qual a combinação é padrão para mulheres que ainda possuem útero.

Em relação às doenças cardiovasculares, a THM pode melhorar o perfil lipídico e a função endotelial quando iniciada antes dos 60 anos ou até cinco anos após a última menstruação. O risco de eventos trombóticos aumenta apenas em uso prolongado e em doses altas.

O impacto da mudança de rotulagem da FDA

A FDA retirou o retângulo preto que indicava o alerta máximo de segurança nos rótulos de seis medicamentos hormonais. Essa decisão foi baseada em uma revisão de mais de 20 estudos que mostraram que os benefícios superam os riscos em populações bem selecionadas. A mudança não elimina os riscos, mas comunica que eles são menores do que se acreditava anteriormente.

No Brasil, ainda não há um alerta equivalente nos rótulos, mas a comunidade médica tem acompanhado de perto a atualização americana. A professora Lúcia Costa Paiva, da UNICAMP, afirma que a nova rotulagem traz mais segurança para as mulheres que buscam tratamento e ajuda os profissionais que ainda não estão totalmente atualizados.

Entretanto, especialistas como o endocrinologista Alexandre Hohl alertam que a retirada do alerta não significa que a THM seja isenta de riscos. Cada caso deve ser avaliado individualmente, considerando histórico familiar, presença de comorbidades e preferências da paciente.

Como decidir se a terapia hormonal é adequada para você

O primeiro passo é buscar avaliação médica especializada. Durante a consulta, o profissional deve coletar informações sobre:

  • Idade e tempo desde a última menstruação;
  • Presença ou ausência de útero;
  • Histórico familiar de câncer de mama ou de útero;
  • Doenças cardiovasculares, trombóticas ou hepáticas;
  • Intensidade e frequência dos sintomas da menopausa.

Com base nesses dados, o médico pode recomendar:

  • THM sistêmica (comprimidos, adesivos ou géis) para alívio rápido de ondas de calor;
  • THM local (cremes vaginais) para secura e desconforto sexual;
  • Alternativas não hormonais, como antidepressivos, fitoterápicos ou mudanças no estilo de vida.

É fundamental que a mulher esteja ciente de que a terapia pode ser iniciada por um período limitado (geralmente de três a cinco anos) e que o acompanhamento anual é essencial para reavaliar riscos e benefícios.

Além disso, a adesão a hábitos saudáveis – alimentação balanceada, prática regular de exercícios, controle do peso e cessação do tabagismo – potencializa os efeitos positivos da THM e reduz a probabilidade de complicações.

O panorama brasileiro: medo versus realidade

Um estudo nacional realizado em 2022 com 1.500 mulheres mostrou que apenas 22% das pacientes que procuraram um médico por sintomas de menopausa receberam indicação de THM. Esse número reflete tanto o desconhecimento da população quanto a hesitação dos profissionais diante de informações desatualizadas.

Entrevistas com ginecologistas revelam que o medo de causar câncer ainda é o principal obstáculo. Muitos médicos ainda citam o antigo alerta da FDA como referência, mesmo após a revisão recente. A falta de materiais de orientação atualizados nas clínicas contribui para a perpetuação desse mito.

Para mudar esse cenário, associações médicas brasileiras têm promovido cursos de atualização e campanhas de informação ao público. O objetivo é desmistificar a terapia, apresentar evidências científicas recentes e incentivar o diálogo aberto entre paciente e profissional.

Em resumo, a terapia hormonal da menopausa continua sendo uma ferramenta eficaz quando usada de forma criteriosa. O medo exagerado, alimentado por estudos ultrapassados e por alertas de segurança rígidos, pode impedir que muitas mulheres usufruam de alívio significativo dos sintomas e de benefícios a longo prazo. A decisão deve ser individualizada, baseada em evidências atuais e feita em conjunto com um especialista.

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