Um estudo conduzido no Instituto do Cérebro do Hospital Pitié‑Salpêtrière, em Paris, identificou que determinadas ondas lentas registradas por eletroencefalograma (EEG) em pessoas acordadas podem antecipar o risco de desenvolver Alzheimer. A pesquisa, iniciada há alguns anos, acompanhou idosos entre 70 e 85 anos que apresentavam queixas de memória, mas ainda não tinham diagnóstico definitivo da doença.
Como as ondas cerebrais são capturadas e analisadas
O EEG registra a atividade elétrica do cérebro através de eletrodos posicionados na superfície do crânio. Cada onda tem uma amplitude e frequência que variam conforme a tarefa mental realizada.
Durante o sono profundo, predominam as chamadas ondas lentas, que também podem surgir em estado de vigília quando o cérebro está sob alta demanda cognitiva ou quando há privação de sono.
Os neurocientistas Thomas Andrillon e Delphine Oudiette utilizaram essa característica para investigar se a presença de ondas lentas em repouso poderia servir como marcador precoce de processos neurodegenerativos.
Para isso, os participantes passaram por uma bateria de exames que incluía:
- Avaliação neuropsicológica detalhada;
- EEG em repouso, com foco nas ondas lentas;
- Ressonância magnética para mapear a estrutura cerebral;
- Tomografia por emissão de pósitrons (PET scan) para detectar depósitos de beta‑amiloide.
Os mesmos exames foram repetidos dois anos depois, permitindo comparar a evolução dos marcadores biológicos com as alterações nas ondas cerebrais.
Descobertas sobre a relação entre ondas lentas e Alzheimer
Os resultados mostraram que, entre os idosos que inicialmente não apresentavam placas de amiloide, aqueles com maior amplitude de ondas lentas no EEG baseline acumularam mais depósitos amiloides ao longo dos dois anos de acompanhamento.
Essa correlação sugere que a sincronização excessiva de neurônios em determinadas regiões pode refletir um processo patológico ainda incipiente, antes mesmo de aparecerem sintomas clínicos evidentes.
Pierre Champetier, primeiro autor do estudo, explicou que a sincronização neural observada em estado de vigília lembra o padrão do sono profundo, indicando que o cérebro pode estar tentando compensar déficits de consolidação de memória.
Além da memória, pacientes com doenças neurodegenerativas costumam apresentar:
- Déficits de atenção;
- Distúrbios do sono, especialmente fragmentação do sono REM;
- Alterações na arquitetura das ondas lentas.
Essas manifestações reforçam a ideia de que o sono e a atenção são áreas vulneráveis nos estágios iniciais da doença.
Implicações clínicas e próximos passos
Se confirmada em estudos maiores, a utilização do EEG como ferramenta de rastreamento poderia transformar a prática clínica, oferecendo um exame barato, rápido e não invasivo para identificar indivíduos em risco.
No entanto, os autores alertam que ainda são necessários ensaios adicionais para validar a robustez do marcador e definir protocolos padronizados de coleta e interpretação dos dados.
O objetivo não é substituir exames de imagem ou biomarcadores de líquido cefalorraquidiano, mas complementar o diagnóstico, integrando múltiplas fontes de informação para melhorar a precisão prognóstica.
Em um futuro próximo, clínicas especializadas poderiam oferecer um “pacote de prevenção” que incluísse avaliação cognitiva, EEG de vigília e, se necessário, exames avançados de imagem, permitindo intervenções precoces como mudanças de estilo de vida ou terapias experimentais.
Desafios e perspectivas futuras
Um dos principais desafios é a variabilidade individual das ondas cerebrais, que pode ser influenciada por fatores como idade, uso de medicamentos, nível de estresse e qualidade do sono.
Para superar essas barreiras, pesquisadores planejam criar bancos de dados multilocacionais, combinando registros de EEG com informações genéticas e de estilo de vida, a fim de treinar algoritmos de aprendizado de máquina capazes de identificar padrões de risco com alta sensibilidade.
Enquanto isso, a comunidade científica continua a investigar como intervenções direcionadas ao sono – como terapia cognitivo‑comportamental para insônia ou dispositivos de estimulação de ondas lentas – podem modular esses biomarcadores e, potencialmente, retardar a progressão da demência.
Em síntese, o estudo abre uma nova fronteira ao sugerir que o cérebro deixa pistas detectáveis muito antes da manifestação clínica completa da doença de Alzheimer, oferecendo esperança de diagnósticos mais precoces e estratégias preventivas mais eficazes.








