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Riscos invisíveis que aumentam a gravidade do AVC em mulheres

O acidente vascular cerebral (AVC) continua sendo a principal causa de incapacidade neurológica entre as mulheres, e o último Congresso Brasileiro de Neurologia, realizado de 7 a 10 de outubro em São Paulo, trouxe à tona dados alarmantes sobre fatores de risco ainda pouco reconhecidos. A especialista Letícia Januzi de Almeida Rocha, neurologista do Hospital Universitário da UFAL e vice‑presidente da Sociedade Brasileira de AVC, destacou como essas variáveis silenciosas podem transformar um evento já grave em uma situação ainda mais perigosa para o sexo feminino.

Por que o AVC afeta as mulheres de forma distinta?

Durante a apresentação, a médica explicou que o fenótipo vascular – conjunto de características dos vasos sanguíneos influenciadas por genes e ambiente – varia ao longo das diferentes fases da vida da mulher. Desde a puberdade até a menopausa, alterações hormonais, comportamentais e sociais remodelam o sistema circulatório, exigindo uma avaliação clínica mais aprofundada.

Essas mudanças não são apenas biológicas; elas também refletem padrões de risco que muitas vezes passam despercebidos nas consultas de rotina. Por isso, a análise detalhada do histórico médico, incluindo episódios de enxaqueca, uso de contraceptivos hormonais e histórico de pré‑eclâmpsia, torna‑se essencial.

Fatores de risco subestimados que merecem atenção

Letícia Januzi enumerou uma lista de fatores que, embora não sejam tradicionalmente classificados como vasculares, têm forte correlação com a incidência e gravidade do AVC em mulheres:

  • Enxaqueca com aura: aumenta em até 2 vezes a probabilidade de AVC isquêmico.
  • Uso prolongado de contraceptivos hormonais combinados: eleva o risco de trombose venosa profunda, que pode evoluir para AVC.
  • Histórico de pré‑eclâmpsia ou eclâmpsia: indica vulnerabilidade vascular que persiste após a gestação.
  • Depressão e ansiedade crônicas: associadas a hábitos de vida sedentários e aumento da pressão arterial.
  • Fumo passivo: exposição frequente a fumaça de cigarro em ambientes domésticos ou de trabalho.

Além desses, a médica ressaltou a importância de considerar fatores como a síndrome metabólica, a presença de fibrilação atrial silenciosa e a prática de dietas extremamente restritivas, que podem desencadear deficiências nutricionais e desequilíbrios eletrolíticos.

Como a prática clínica pode mudar o panorama

Para reduzir a mortalidade e o impacto funcional do AVC nas mulheres, os profissionais de saúde precisam adotar estratégias proativas. Primeiro, é fundamental incorporar perguntas específicas sobre histórico reprodutivo e uso de hormônios nas anamnese padrão.

Segundo, a realização de exames de imagem avançados, como a ressonância magnética de alta resolução, pode identificar lesões vasculares precoces que ainda não se manifestam clinicamente.

Terceiro, o acompanhamento multidisciplinar – envolvendo neurologistas, cardiologistas, ginecologistas e psicólogos – garante que todas as dimensões do risco sejam monitoradas e tratadas de forma integrada.

Prevenção: hábitos que podem salvar vidas

Além das intervenções médicas, a mudança de estilo de vida permanece como a pedra angular da prevenção. As recomendações incluem:

  • Manter a pressão arterial abaixo de 130/80 mmHg, através de dieta balanceada e controle regular.
  • Praticar atividade física moderada, como caminhadas rápidas, por pelo menos 150 minutos por semana.
  • Adotar uma alimentação rica em frutas, legumes, grãos integrais e gorduras saudáveis, reduzindo o consumo de sal e alimentos ultraprocessados.
  • Evitar o tabagismo ativo e reduzir a exposição ao fumo passivo.
  • Controlar o estresse com técnicas de mindfulness, yoga ou terapia cognitivo‑comportamental.

Essas medidas, quando combinadas, podem diminuir significativamente a incidência de eventos cerebrovasculares, especialmente em mulheres que apresentam um ou mais dos fatores de risco mencionados.

Em síntese, o alerta dado no Neuro 2026 reforça que o AVC em mulheres não deve ser visto como um fenômeno genérico. Cada fase da vida traz desafios específicos, e a identificação precoce de riscos subestimados pode ser a diferença entre a recuperação plena e sequelas permanentes.

Ao disseminar esse conhecimento entre profissionais de saúde e a população em geral, abre‑se caminho para políticas públicas mais eficazes, programas de rastreamento direcionados e, sobretudo, para a conscientização de que a saúde cerebral feminina exige atenção contínua e personalizada.

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