Um estudo independente publicado em 9 de outubro de 2024 revelou que a proporção de jovens britânicos entre 16 e 24 anos com transtornos mentais comuns subiu de um em cada seis em 1993 para um em cada quatro atualmente. O mesmo levantamento apontou que os registros de autismo cresceram mais de vinte vezes e os de TDAH mais de seis vezes em faixas etárias específicas.
Crescimento dos diagnósticos nos últimos três décadas
Os números mostram um salto significativo na incidência de diagnósticos formais. Entre 1993 e 2024, a taxa de jovens com sintomas de ansiedade, depressão e pânico aumentou de forma constante, enquanto a irritabilidade apresentou queda e os problemas de conduta permaneceram estáveis.
Essa disparidade indica que o aumento não pode ser atribuído apenas a uma maior disposição das pessoas em relatar seus sintomas. A pesquisa destaca que o sofrimento emocional pode existir sem que o indivíduo preencha os critérios clínicos de um transtorno mental, o que complica a interpretação dos dados.
Além disso, em alguns grupos de idade, o número de diagnósticos registrados de autismo e TDAH já ultrapassa as estimativas de prevalência baseadas em estudos populacionais. Essa situação alimenta o debate sobre a possibilidade de diagnósticos excessivos ou, ao contrário, de subnotificação em outros segmentos da população.
Fatores que explicam a alta nos registros
Especialistas apontam múltiplas razões para o crescimento dos diagnósticos. Entre elas, a maior conscientização pública, a ampliação dos critérios diagnósticos e a melhoria nas ferramentas de avaliação são as mais citadas.
- Conscientização pública: campanhas de saúde mental e a presença de informações nas redes sociais incentivam pais e jovens a buscar avaliação profissional.
- Critérios diagnósticos ampliados: as revisões dos manuais de classificação, como o DSM‑5, incorporaram sintomas mais amplos, permitindo que casos antes considerados subclínicos sejam rotulados.
- Capacidade de triagem avançada: escolas e unidades de saúde passaram a utilizar questionários padronizados que identificam sinais precocemente.
O psiquiatra Guilherme Polanczyk, da USP, ressalta que o aumento observado não se restringe ao Reino Unido, mas reflete uma tendência global. Ele destaca que, embora alguns estudos de prevalência sugiram crescimento real, a evidência ainda é limitada e requer investigação aprofundada.
O neurologista infantil Felipe Kalil, da PUC‑RS, complementa que os avanços tecnológicos, como a neuroimagem e testes genéticos, facilitam a detecção precoce de condições neurodesenvolvimentais, contribuindo para o aumento dos registros.
Implicações para políticas de saúde e educação
A revisão recomenda uma mudança de paradigma nos serviços de saúde, educação e assistência social. Em vez de depender exclusivamente de diagnósticos formais, os sistemas deveriam priorizar a identificação de necessidades individuais e oferecer apoio imediato.
Essa abordagem, segundo o relatório, exige a ampliação da oferta de profissionais qualificados e a criação de fluxos de atendimento mais flexíveis. A proposta recebeu avaliações positivas de especialistas consultados pelo Science Media Centre.
Entretanto, a implementação prática depende de recursos financeiros, treinamento de equipes multidisciplinares e da integração entre escolas, clínicas e serviços sociais. Sem esses ajustes, o risco é que muitos jovens continuem sem acesso ao acompanhamento adequado.
Os especialistas também alertam para o perigo de rotular jovens que apresentam sofrimento emocional, mas que não atendem aos critérios de um transtorno específico. O excesso de diagnósticos pode gerar estigmatização e intervenções desnecessárias, enquanto a falta de diagnóstico pode impedir o acesso a tratamentos essenciais.
Para equilibrar esses extremos, os autores sugerem a adoção de estratégias de apoio universal, como programas de resiliência nas escolas, e a disponibilização de intervenções de baixa intensidade para quem apresenta sintomas leves.
Em resumo, os dados apontam que o aumento dos diagnósticos de TDAH e autismo no Reino Unido reflete tanto uma maior capacidade de detecção quanto mudanças nos parâmetros clínicos. O desafio futuro será transformar essa informação em políticas que garantam apoio efetivo a todos os jovens que necessitam.








