A Polícia Federal revelou nesta sexta-feira (16) uma grave discrepância nos recursos financeiros associados ao filme biográfico “Dark Horse”, que retrata a trajetória do ex‑presidente Jair Bolsonaro. A investigação aponta que mais de US$ 12 milhões foram enviados ao exterior, enquanto apenas US$ 2,8 milhões retornaram ao Brasil.
Contexto da investigação e principais atores
A PF identificou que os valores saíram de uma empresa vinculada ao ex‑dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a Entre Investimentos. O dinheiro foi encaminhado ao fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado Paulo Calixto, próximo ao ex‑deputado Eduardo Bolsonaro.
O foco da apuração recai sobre a origem e a destinação desses recursos, bem como sobre a possível utilização do filme como fachada para ocultação, simulação e desvio de recursos. A PF solicitou ao Supremo Tribunal Federal a prorrogação de 90 dias da investigação, reforçando a complexidade do caso.
Fluxo financeiro e divergências apontadas
Segundo os documentos analisados, o montante enviado ao exterior ultrapassa US$ 12 milhões, enquanto o retorno ao país foi de apenas US$ 2,8 milhões. Essa diferença de quase US$ 9,2 milhões constitui o que a PF descreve como “divergência contábil severa”.
Os números são corroborados por informações da produtora Go UP Entertainment, responsável por “Dark Horse”, que declarou um custo total de R$ 75,1 milhões para o longa‑metragem. Deste total, R$ 54 milhões teriam sido gastos no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil.
- Valor total declarado: R$ 75,1 milhões
- Despesas no exterior: R$ 54 milhões
- Despesas no Brasil: R$ 20,9 milhões
A defesa da produtora, representada por Karina Ferreira da Gama, assegura que a perícia vai comprovar a lisura e a legalidade de todas as captações realizadas para o filme.
Investigações paralelas e envolvimento de figuras políticas
Três frentes de investigação foram abertas:
- Possível uso do fundo Havengate para financiar o filme ou para camuflar desvios.
- Participação de Eduardo Bolsonaro, que nega receber recursos vinculados a Vorcaro e afirma que seu status migratório nos EUA impediria tais repasses.
- Envio de recursos públicos a organizações ligadas à proprietária da produtora, analisado pelo ministro Flávio Dino.
Eduardo Bolsonaro chegou a assinar contrato como produtor‑executivo do filme, alegando um investimento de US$ 50 mil que teria sido devolvido, mas sem passar pelo fundo Havengate. Ele também declarou ter informado às autoridades americanas a origem dos recursos.
A terceira frente da investigação ganhou força após a deputada Tabata Amaral solicitar ao STF a apuração de duas emendas parlamentares de R$ 2 milhões, indicadas pelo deputado Mario Frias, destinadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) e à Academia Nacional de Cultura (ANC), ambas presididas por Karina Ferreira da Gama.
Mario Frias, que também atua como roteirista e produtor‑executivo do filme, afirmou ao STF que as emendas não foram utilizadas para financiar a produção cinematográfica.
Repercussões e próximos passos
A PF entregou ao STF documentos que justificam a prorrogação da investigação, incluindo planilhas que evidenciam a disparidade entre os valores enviados ao exterior e os que retornaram ao Brasil. O pedido de extensão de 90 dias visa aprofundar a análise das transações e identificar eventuais beneficiários finais.
Enquanto isso, a produtora Go UP Entertainment mantém sua posição de que a obra representa uma iniciativa histórica e que todas as captações foram realizadas dentro da legalidade. A empresa espera que a perícia esclareça quaisquer dúvidas e confirme a regularidade dos recursos.
O caso continua a gerar grande interesse na mídia e entre os eleitores, especialmente porque envolve nomes de destaque da família Bolsonaro e de empresários ligados ao setor bancário. A expectativa é de que novas revelações surjam nos próximos meses, à medida que a investigação avança.








