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Pai narra década de luta contra o câncer e cria hospice em memória do filho

Em 2011, o pequeno Francesco Leonardo Beira faleceu aos dez anos, após viver quase uma década combatendo um tumor cerebral agressivo. Seu pai, Waldir Beira Júnior, escreveu a carta que inspirou o livro “Desapego com Dor e Amor”, lançada pela Editora DBA. O relato descreve a rotina de tratamentos, as pequenas vitórias e a criação do TUCCA Hospice, o primeiro serviço latino-americano dedicado a crianças com câncer incurável.

A descoberta e o diagnóstico precoce

Quando Francesco ainda não completava um ano de vida, um médico alertou que ele não chegaria aos dois anos de idade. O prognóstico devastador gerou medo, mas também uma decisão imediata: buscar todos os recursos médicos disponíveis.

Os pais, Waldir e Priscila, mudaram a cidade, ajustaram a rotina de trabalho e investiram em consultas especializadas. Cada visita ao hospital era marcada por esperança e ansiedade, enquanto os exames de imagem revelavam a extensão do tumor.

O diagnóstico precoce, embora trágico, permitiu que a família começasse um plano de tratamento intensivo. Foram necessárias sete cirurgias ao longo dos anos, além de sessões diárias de quimioterapia que se estendiam por cinco dias na semana.

Durante as fases de recuperação, Francesco ficava limitado, mas a equipe médica adotou protocolos de suporte que incluíam fisioterapia, nutrição especializada e acompanhamento psicológico. Esse cuidado multidisciplinar foi fundamental para que o menino mantivesse qualidade de vida.

A jornada de tratamentos e conquistas

Mesmo com a carga pesada de procedimentos, Francesco demonstrava uma energia surpreendente. Entre um tratamento e outro, ele concluía o ensino fundamental, participava de excursões escolares e sonhava com a próxima viagem à Disney.

Algumas das atividades que marcaram sua infância incluem:

  • Montar e colecionar carrinhos de brinquedo;
  • Desenhar personagens de desenhos animados;
  • Jogar videogame nas tardes de fim de semana;
  • Assistir a filmes de aventura com a família.

Em ciclos menores de quimioterapia, o menino apresentava forte queda à noite, mas já na tarde seguinte recuperava energia, saía para brincar e mostrava um sorriso que contagiava todos ao redor.

Waldir descreve o filho como “uma criança iluminada”, que jamais reclamou das limitações impostas pela doença. Essa postura inspirou pais, médicos e voluntários a enxergarem além da enfermidade, valorizando cada momento de alegria.

Além das cirurgias, Francesco passou por sessões de radioterapia, terapia de apoio e intervenções de cuidados paliativos. Cada etapa era acompanhada por um plano de manejo da dor, garantindo que o sofrimento físico fosse minimizado.

O legado: TUCCA Hospice Francesco Leonardo Beira

Após o falecimento de Francesco, a poupança que os pais haviam criado para seu futuro foi destinada à fundação do TUCCA Hospice, inaugurado em São Paulo em 2013. O hospice oferece acolhimento gratuito a crianças de zero a 18 anos com câncer avançado e a suas famílias.

O modelo de atendimento segue princípios de cuidados paliativos, priorizando conforto, apoio emocional e manutenção da dignidade. As instalações incluem quartos individuais, áreas de recreação, salas de arte-terapia e espaços de oração.

O financiamento do serviço depende de doações, campanhas beneficentes e parcerias com empresas do setor de saúde. Desde a sua criação, o TUCCA já atendeu mais de mil famílias, proporcionando momentos de alívio e esperança em meio ao sofrimento.

Algumas das ações realizadas pelo hospice são:

  1. Programas de apoio psicológico para pais e irmãos;
  2. Atividades lúdicas adaptadas às condições de saúde das crianças;
  3. Orientação nutricional personalizada;
  4. Treinamento de profissionais de saúde em cuidados paliativos infantis.

Waldir enfatiza que o objetivo não é curar, mas garantir que cada criança viva com qualidade, amor e respeito, independentemente do tempo que lhe resta.

Reflexões sobre cuidados paliativos e amor

Em seu livro, o autor questiona a razão de ler histórias dolorosas. Ele responde que elas revelam o significado profundo de amor, força, fé e persistência diante da finitude.

A sociedade costuma medir o valor das pessoas pela produtividade, mas a experiência de Francesco demonstra que a existência mantém sentido mesmo quando a doença limita as funções físicas.

Os cuidados paliativos, quando aplicados desde a infância, transformam a trajetória de pacientes com prognóstico reservado. Eles permitem que a criança participe de atividades cotidianas, mantenha laços afetivos e desenvolva habilidades sociais.

Waldir compartilha que a jornada ensinou-lhe a descobrir uma força interior que jamais imaginara possuir. Essa força agora se materializa no trabalho diário do hospice, que leva o nome do filho como símbolo de resistência e esperança.

Ao concluir, o autor deixa uma mensagem para quem enfrenta situações semelhantes: “Não se trata de martirizar-se, mas de reconhecer que cada sorriso, cada dente de leite arrancado, cada desenho feito, são provas de que a vida persiste, mesmo nas sombras”.

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