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Brasil avança com estudo de injeção ultralonga contra HIV a cada quatro meses

Um ensaio clínico internacional de fase 3, denominado CUATRO, começou a testar no Brasil um tratamento injetável de ação ultralonga contra o HIV, com aplicação a cada quatro meses. O recrutamento de participantes brasileiros foi concluído em 2024, e as primeiras doses já foram administradas em São Paulo.

O que é o estudo CUATRO e quais são seus objetivos

O CUATRO investiga duas formulações de ação prolongada: o cabotegravir, um inibidor da integrase, e a rilpivirina, um inibidor da transcriptase reversa. Ambas já são usadas em versões injetáveis com intervalos de duas a oito semanas.

A proposta inovadora do estudo é estender esse intervalo para quatro meses, reduzindo drasticamente a frequência de visitas ao serviço de saúde. O objetivo principal é comprovar que a carga viral permanece suprimida (≤50 cópias/mL) ao longo de todo o período.

Além da eficácia virológica, os pesquisadores monitoram a segurança, a tolerabilidade e a qualidade de vida dos participantes. O protocolo inclui exames laboratoriais, eletrocardiogramas e avaliações de eventos adversos em cada ciclo.

O ensaio está sendo conduzido em mais de 10 países, com a meta de incluir cerca de 564 voluntários até 2029. Os primeiros resultados intermediários devem ser divulgados ainda em 2026, oferecendo uma visão preliminar sobre a viabilidade da estratégia.

Participação brasileira e o caso de Pisci Bruja

No Brasil, 65 participantes já foram inseridos no estudo, e mais cinco estão em fase de triagem, segundo o infectologista José Valdez Ramalho Madruga, do Centro de Referência e Treinamento (CRT) em DST/Aids de São Paulo.

O CRT encerrou o recrutamento após receber mais de 50 manifestações de interesse, mas apenas 11 candidatos foram selecionados para cumprir os critérios rigorosos de carga viral suprimida e adesão ao acompanhamento.

Entre os selecionados está a antropóloga e ativista trans Pisci Bruja, doutoranda em Saúde Coletiva na USP. Ela se tornou a primeira voluntária brasileira a iniciar o braço que testa o intervalo de quatro meses.

Pisci compartilha abertamente sua experiência de viver com HIV, destacando que a terapia diária se tornou mais manejável ao longo dos anos, mas reconhece que ainda há muitos que enfrentam barreiras ao tratamento regular.

Para Pisci, a participação no estudo também representa uma oportunidade de acompanhar de perto a evolução científica e de contribuir para a ampliação de opções terapêuticas para a comunidade LGBTQIA+.

Ela já recebeu o primeiro ciclo, composto por duas injeções intramusculares simultâneas – uma de cabotegravir e outra de rilpivirina – e aguarda o próximo agendamento dentro de quatro meses.

Impactos esperados e desafios das terapias injetáveis de longa duração

As injeções de ação ultralonga podem transformar a rotina de tratamento de milhões de pessoas que atualmente dependem de comprimidos diários. Entre os benefícios potenciais estão:

  • Redução do risco de esquecimento de doses;
  • Menor exposição a efeitos colaterais gastrointestinais associados a medicamentos orais;
  • Maior discrição, evitando a necessidade de revelar a condição a parceiros ou colegas de trabalho.

Entretanto, o modelo também apresenta desafios. A necessidade de visitas presenciais a unidades de saúde pode ser um obstáculo em áreas remotas ou para pessoas com mobilidade reduzida.

Além disso, a tolerância a injeções intramusculares varia entre os indivíduos, e reações locais como dor ou nódulos podem comprometer a adesão ao esquema.

Outro ponto crítico é o custo. As formulações ultralonga ainda são caras de produzir, o que pode limitar sua disponibilidade nos sistemas públicos de saúde, especialmente em países de baixa renda.

Os pesquisadores do CUATRO monitoram esses aspectos por meio de questionários de qualidade de vida, registros de eventos adversos e análises econômicas preliminares.

Próximos passos e perspectivas para o tratamento do HIV

Se os resultados confirmarem que a supressão viral pode ser mantida com injeções a cada quatro meses, as diretrizes internacionais poderão recomendar essa opção como alternativa de manutenção para pacientes estáveis.

Isso abriria caminho para a implementação de clínicas de injeção especializada, reduzindo a carga sobre serviços de atenção primária e permitindo que recursos sejam redirecionados para prevenção e diagnóstico precoce.

Além do CUATRO, outras pesquisas estão explorando formulações ainda mais prolongadas, como doses semestrais ou anuais, que poderiam tornar o HIV quase indistinguível de uma condição curada.

Para a comunidade afetada, a esperança reside não apenas na eficácia clínica, mas também no impacto social: menos estigma, mais autonomia e a possibilidade de viver uma vida plena sem a constante lembrança de uma medicação diária.

Os próximos relatórios do estudo, previstos para 2026 e 2027, serão fundamentais para validar essa visão e orientar políticas públicas que busquem universalizar o acesso a terapias de longa duração.

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