A cidade de Nova York decidiu avançar com um projeto de lei que pode banir os tradicionais passeios de carruagem puxada por cavalos no Central Park, após a morte trágica de um adolescente em junho de 2024. A proposta será votada pelo Conselho Municipal ainda nesta semana, e, se aprovada, terá vigência até 2028.
Contexto da proposta
Os passeios de carruagem são uma tradição que remonta a mais de 150 anos, quando os primeiros veículos foram introduzidos para atender turistas que desejavam conhecer o parque de forma romântica. Ao longo das décadas, a atividade ganhou destaque em filmes, séries e cartões-postais, tornando‑se um símbolo da paisagem urbana de Nova York.
Nos últimos anos, porém, defensores dos direitos animais intensificaram a pressão sobre a prefeitura, apontando riscos à segurança dos passageiros e ao bem‑estar dos cavalos. A cidade já impôs regras mais rígidas, como períodos de descanso de cinco semanas ao ano e exames veterinários semestrais, mas os críticos consideram as medidas insuficientes.
Três prefeitos consecutivos – Bill de Blasio, Eric Adams e o atual Zohran Mamdani – manifestaram apoio à proibição, embora apenas o último tenha conseguido alinhar o apoio do Conselho Municipal. A presidente do Conselho, Julie Menin, confirmou que o projeto tem apoio majoritário para ser aprovado.
A tragédia que impulsionou a mudança
Em junho de 2024, Romanch Mahajan, um turista indiano de 18 anos, morreu ao tentar salvar sua mãe de um acidente envolvendo uma carruagem desgovernada. Segundo relatos, o cavalo disparou, arremessando a mãe do assento; Mahajan pulou para auxiliá‑la e acabou caindo fatalmente.
Esse foi o primeiro óbito registrado desde o início dos passeios no Central Park, e o incidente reacendeu o debate sobre a continuidade da atividade. A família de Mahajan compareceu a audiências públicas, inclusive por videoconferência da Índia, exigindo o fim imediato dos passeios.
Além da perda humana, o acidente trouxe à tona relatos de cavalos que desmaiaram, se assustaram e chegaram a fugir, colidindo com veículos e pedestres. Esses episódios reforçam as preocupações sobre a adequação de transportar animais em um ambiente tão movimentado.
Reações e impactos econômicos
Os defensores dos animais argumentam que os cavalos não deveriam ser expostos a tráfego intenso, temperaturas elevadas e ao estresse de carregar turistas. Eles destacam ainda a necessidade de garantir uma aposentadoria digna para os animais, proibindo a venda para abate.
Por outro lado, a indústria dos passeios de carruagem e sindicatos ligados aos condutores alertam para as consequências econômicas de um banimento abrupto. O presidente internacional do Sindicato dos Trabalhadores do Transporte, John Samuelsen, criticou a falta de compensação financeira adequada para os profissionais.
O texto do projeto de lei inclui, entretanto, medidas de transição, como a criação de um plano de recolocação profissional para os condutores e a avaliação de compensações econômicas. Também estabelece que os cavalos não poderão ser vendidos para abate e deverão receber destinação humanitária.
Entre os principais argumentos dos defensores dos animais, destacam‑se:
- Segurança pública: risco de acidentes graves como o ocorrido em junho.
- Bem‑estar animal: exposição a ruídos, calor excessivo e trabalho prolongado.
- Responsabilidade ética: necessidade de alternativas turísticas que não explorem animais.
Já os apoiadores da tradição citam benefícios como a preservação cultural, a geração de empregos e a experiência única que os visitantes têm ao reviver cenas de filmes clássicos como “The Band Wagon” e “Esqueceram de Mim 2 – Perdido em Nova York”.
O debate também inclui questões sobre o futuro dos cavalos caso os passeios sejam encerrados. Organizações de proteção animal propõem programas de adoção e santuários, enquanto sindicatos temem a perda de renda para os condutores que dependem da atividade para sustentar suas famílias.
Até o momento, a maioria dos moradores de Nova York parece apoiar a medida de proibição, especialmente após a fatalidade. Pesquisas de opinião realizadas pela prefeitura indicam que mais de 60 % dos entrevistados consideram que os riscos superam os benefícios culturais.
Se o projeto for aprovado, a cidade terá até 2028 para implementar o fim dos passeios, permitindo um período de transição para todos os envolvidos. Durante esse intervalo, os cavalos continuarão a receber cuidados veterinários regulares, descanso adequado e restrições de temperatura, conforme as normas vigentes.
Independentemente do desfecho, a discussão sobre o uso de animais em atividades turísticas permanece relevante em cidades ao redor do mundo, refletindo uma tendência crescente de repensar práticas que antes eram consideradas inofensivas.
O caso de Nova York pode servir de referência para outras metrópoles que enfrentam dilemas semelhantes entre tradição, turismo e direitos dos animais.








