Um estudo internacional publicado na Academia Europeia de Dermatologia revelou que o uso de canetas injetáveis de GLP‑1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, está associado a um risco quatro vezes maior de problemas nas unhas. A pesquisa, conduzida entre 2022 e 2024, analisou pacientes de quatro países, incluindo o Brasil. Os resultados apontam para um efeito colateral inesperado que pode impactar a qualidade de vida de quem utiliza esses medicamentos.
Contexto do uso das canetas GLP‑1
Nos últimos anos, as canetas de GLP‑1 ganharam destaque como tratamento eficaz para diabetes tipo 2 e obesidade, sobretudo por promoverem perda de peso significativa. O sucesso clínico dessas drogas incentivou sua prescrição em larga escala, inclusive fora dos protocolos tradicionais.
Os fármacos atuam estimulando a secreção de insulina e reduzindo o apetite, o que explica a rápida adoção por pacientes que buscam resultados expressivos em curto prazo. No entanto, a expansão do uso trouxe à tona a necessidade de monitorar efeitos colaterais menos evidentes.
Até então, os efeitos adversos mais relatados incluíam náuseas, vômitos e episódios de hipoglicemia. A literatura ainda carecia de estudos que investigassem alterações dermatológicas, como as que afetam as unhas.
Detalhes do estudo e principais achados
Os pesquisadores, liderados por um centro francês, recrutaram 575 pacientes que utilizavam canetas de GLP‑1 e 1.329 controles que nunca haviam sido expostos ao medicamento. Os participantes provinham da França, Estados Unidos, México e Brasil, garantindo diversidade geográfica e étnica.
Os exames dermatológicos foram realizados por dermatologistas treinados, que avaliaram a presença de descolamento (onicolise) e descoloração das unhas, além de outros sinais como espessamento ou fragilidade.
Os resultados mostraram que quase 40% dos usuários de GLP‑1 apresentaram descolamento da unha, enquanto menos de 10% dos não‑usuários relataram o mesmo problema. Além disso, 46% dos pacientes em tratamento notaram descoloração, comparado a 17% no grupo controle.
Em termos gerais, 66% dos usuários relataram alguma alteração nas unhas, contra 53% dos participantes que não utilizavam o fármaco. Esses números indicam uma associação estatisticamente significativa entre a terapia e as alterações ungueais.
Os autores destacam que, embora a perda de peso possa contribuir para alterações metabólicas que afetam as unhas, a magnitude das diferenças sugere um papel direto das canetas GLP‑1. Ainda assim, eles alertam que a causalidade definitiva ainda não foi comprovada.
Uma sub‑análise que considerou doenças de pele pré‑existentes e deficiências nutricionais manteve a relação de três vezes maior risco de descolamento e descoloração entre os usuários, reforçando a robustez dos achados.
Além das unhas, os especialistas observaram queda de cabelo e redução do volume capilar em uma parcela dos pacientes, fenômeno já descrito em estudos anteriores sobre GLP‑1.
- Descolamento da unha (onicolise)
- Descoloração ou manchas
- Fragilidade e quebra fácil
- Queda de cabelo
- Redução do volume capilar
Implicações clínicas e recomendações
Os resultados sugerem que profissionais de saúde devem incluir avaliação dermatológica na rotina de acompanhamento de pacientes que utilizam canetas GLP‑1. Uma inspeção visual periódica pode identificar alterações precoces e permitir intervenções antes que o problema se agrave.
Para pacientes, a recomendação é observar sinais como mudança de cor, separação da unha da pele ou aumento da fragilidade, e relatar imediatamente ao médico. O tratamento pode envolver suplementação de vitaminas, ajuste nutricional ou, em casos mais graves, a suspensão temporária da medicação.
Os autores do estudo ressaltam que a obesidade e o diabetes tipo 2 já predisporiam a alterações ungueais, o que dificulta isolar o efeito da medicação. Por isso, é fundamental considerar o estado metabólico geral ao interpretar os resultados.
Futuros trabalhos deverão investigar os mecanismos biológicos subjacentes, como possíveis alterações na circulação periférica ou no metabolismo da queratina induzidas pelos agonistas de GLP‑1.
Enquanto a comunidade científica busca respostas mais definitivas, a mensagem central permanece: a eficácia das canetas GLP‑1 não elimina a necessidade de vigilância contínua sobre a saúde da pele e das unhas.
Em síntese, a pesquisa abre caminho para que pacientes e profissionais adotem uma abordagem mais holística, integrando controle glicêmico, perda de peso e cuidados dermatológicos. Essa estratégia pode minimizar riscos e maximizar os benefícios do tratamento.








