Um número crescente de passageiros relata sentir náuseas e até vômitos ao viajar em carros elétricos nas últimas duas décadas, principalmente no Reino Unido e nos Estados Unidos. O fenômeno tem sido observado em viagens curtas e longas, tanto em veículos particulares quanto em serviços de táxi. Especialistas apontam que ainda não há consenso científico, mas diversas hipóteses já foram levantadas.
Relatos de passageiros e casos reais
Lola Baird, de 24 anos, nunca havia sentido enjoo de movimento até que seu namorado adquiriu um carro elétrico há dois anos. Quarenta minutos após o início de uma viagem, ela começou a sentir forte náusea, acabou vomitando no chão do carro e pediu para o parceiro encostar o veículo. Desde então, qualquer trajeto em um carro elétrico tem sido acompanhado de mal-estar.
Outros relatos semelhantes chegaram à BBC News, incluindo o de Mark Quigg, de 45 anos, que percebeu que sua filha de nove anos passou a enjoar até em deslocamentos de 30 minutos, algo que nunca acontecera durante as férias escolares em viagens longas de carro a combustão. Em um episódio recente, a menina chegou a vomitar dentro do veículo elétrico, gerando preocupação no pai.
Entretanto, nem todos os usuários compartilham a mesma experiência. Vários proprietários afirmam que não sentem nenhum desconforto e, em alguns casos, relatam menor incidência de cinetose em comparação com veículos tradicionais. A CEO da EVA England, Vicky Edmonds, declarou que o enjoo de movimento não é uma queixa frequente entre os membros da associação.
O que a ciência diz sobre a cinetose em veículos elétricos
A professora sênior Irene Di Giulio, do King’s College London, estuda cinetose e observa que alguns estudos preliminares indicam maior sensibilidade ao enjoo em veículos elétricos. Ela ressalta que os dados ainda são limitados e baseados em amostras pequenas.
Nos Estados Unidos, o neurologista Nicholas Hac, da Northwestern Medicine, relata ouvir o mesmo sintoma de pacientes que viajam em carros elétricos. “Cerca de dois pacientes por mês mencionam especificamente a sensação de enjoo em veículos elétricos”, afirma.
Bill Yates, pesquisador da Universidade de Pittsburgh, classifica o conjunto de pesquisas como “bastante superficial” e alerta que ainda faltam estudos controlados e de grande escala para confirmar qualquer correlação causal.
Possíveis fatores que intensificam o enjoo
Embora a causa exata ainda não esteja comprovada, especialistas apontam alguns fatores que podem contribuir para a cinetose em carros elétricos:
- Silêncio interno: a ausência de ruído do motor pode reduzir os estímulos sensoriais que ajudam o cérebro a calibrar o movimento.
- Torque instantâneo: a aceleração rápida e constante pode gerar variações de força que confundem o sistema vestibular.
- Suspensão mais rígida: alguns modelos têm suspensão afinada para desempenho, transmitindo vibrações mais intensas aos ocupantes.
- Ambiente de cabine: iluminação LED e telas digitais podem criar estímulos visuais que, combinados com a falta de ruído, aumentam a sensação de desorientação.
- Frequência de vibração: motores elétricos operam em frequências diferentes das de motores a combustão, o que pode interferir na percepção de movimento.
Além desses aspectos técnicos, fatores individuais como predisposição genética, ansiedade, alimentação antes da viagem e uso de medicamentos também desempenham papel importante na manifestação da cinetose.
O que fabricantes e especialistas recomendam
A fabricante chinesa XPeng, que já comercializa veículos elétricos no Reino Unido, reconhece a preocupação dos usuários e afirma que a relação entre enjoo e carros elétricos é “uma pergunta pertinente e não é imaginação sua”. A empresa recomenda que motoristas ajustem a configuração de suspensão, reduzam a velocidade de aceleração e mantenham o ar-condicionado em níveis confortáveis.
Especialistas sugerem algumas estratégias práticas para quem sente enjoo ao usar veículos elétricos:
- Focar o olhar em pontos fixos no horizonte ou no próprio interior do carro, evitando leitura de telas.
- Manter a janela levemente aberta para introduzir ruído ambiente, ajudando a estabilizar a percepção sensorial.
- Evitar refeições pesadas ou gordurosas antes da viagem e preferir lanches leves.
- Utilizar medicamentos anti‑cinetose aprovados, como a meclizina, sob orientação médica.
- Programar a condução com acelerações suaves, evitando arrancadas bruscas.
Para os pais, é importante observar sinais de desconforto em crianças, pois elas podem ter maior sensibilidade ao movimento. Em casos recorrentes, consultar um otorrinolaringologista ou neurologista pode ajudar a identificar causas subjacentes.
Enquanto a comunidade científica trabalha para aprofundar o entendimento, os consumidores podem adotar medidas preventivas e escolher modelos que ofereçam ajustes de suspensão e isolamento acústico mais adequados ao seu conforto.
Em resumo, embora ainda não haja evidência definitiva de que carros elétricos causem mais enjoo que veículos a combustão, relatos consistentes e hipóteses plausíveis justificam a necessidade de mais pesquisas. Enquanto isso, motoristas e passageiros podem mitigar o desconforto com pequenas mudanças de comportamento e ajustes técnicos.








