O câncer de pulmão tem se tornado uma preocupação crescente entre as mulheres brasileiras, sobretudo nos últimos anos, com um aumento significativo de casos entre não fumantes. Dados recentes do Ministério da Saúde e do INCA mostram que cerca de 15% das pacientes não têm histórico de tabagismo. Esse cenário evidencia a necessidade de repensar estratégias de prevenção e diagnóstico no país.
Epidemiologia e tendências atuais
Historicamente, a doença era associada ao consumo de cigarro e predominava entre homens. Desde o início do século XXI, porém, a proporção de mulheres diagnosticadas tem subido de forma consistente. Nos Estados Unidos, 10 a 20% dos casos ocorrem em não fumantes, enquanto na Ásia esse número ultrapassa 30%.
No Brasil, a região sul apresenta a maior taxa de mortalidade por câncer de pulmão em mulheres, ficando atrás apenas do câncer de mama como causa de óbito por neoplasia. Essa distribuição geográfica reflete diferenças nos padrões de exposição ambiental e acesso a serviços de saúde.
Um estudo de coorte realizado em Xangai em 2025 revelou que, entre casais não fumantes, a incidência de câncer de pulmão foi 1,57 vezes maior nas esposas do que nos maridos, reforçando a hipótese de vulnerabilidade específica ao sexo feminino.
Fatores de risco além do tabagismo
Vários fatores estão sendo investigados como possíveis responsáveis pelo aumento de casos entre mulheres que nunca fumaram. Entre eles, destacam‑se:
- Exposição a poluentes atmosféricos, como partículas finas (PM2,5) e gases tóxicos.
- Fumaça de segunda mão em ambientes domésticos e de trabalho.
- Histórico familiar de câncer de pulmão ou de outras neoplasias.
- Alterações genéticas, como mutações no gene EGFR, que são mais prevalentes em mulheres não fumantes.
Uma metanálise com mais de 115 mil pacientes de câncer de pulmão de não pequenas células apontou prevalência global de mutações no EGFR em 32,3% dos casos, sendo maior em mulheres e em não fumantes. Essas mutações geram tumores com comportamento biológico distinto, muitas vezes mais responsivos a terapias-alvo.
Além das mutações, diferenças hormonais têm sido estudadas. O estrógeno pode modular vias de sinalização celular, potencializando o efeito de carcinógenos ambientais. Contudo, a evidência ainda é preliminar e requer mais pesquisas.
Alguns estudos sugerem que, para a mesma carga tabágica, as mulheres apresentam risco maior de desenvolver a doença. Um levantamento de pacientes com 40 maços‑ano de consumo relatou razão de chances superior nas mulheres, embora coortes mais amplas não tenham confirmado essa diferença após ajustes estatísticos.
Desafios no diagnóstico e perspectivas de tratamento
O diagnóstico precoce ainda é um grande obstáculo. Programas de rastreamento, como a tomografia de baixa dose, foram desenvolvidos principalmente para fumantes com alta carga tabágica, excluindo grande parte das mulheres não fumantes que apresentam risco.
Além disso, sintomas como tosse persistente, dispneia ou perda de peso costumam aparecer em estágios avançados, quando as opções terapêuticas são mais limitadas. A falta de suspeita clínica em pacientes sem histórico de tabagismo pode atrasar ainda mais a investigação.
Nos últimos anos, avanços terapêuticos têm trazido esperança. As terapias-alvo dirigidas a mutações específicas, como inibidores de EGFR e ALK, aumentam a taxa de resposta e a sobrevida global em subgrupos selecionados. A imunoterapia também vem sendo incorporada ao tratamento padrão, embora sua eficácia possa variar segundo o perfil genético.
O futuro aponta para um modelo de rastreamento mais personalizado, que considere fatores ambientais, histórico familiar e perfil genético, independentemente do tabagismo. Essa abordagem poderia ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e melhorar os resultados clínicos.
Em síntese, o câncer de pulmão em mulheres representa um desafio de saúde pública que exige atenção multidisciplinar. A conscientização da população, a atualização dos protocolos de rastreamento e o investimento em pesquisas genômicas são pilares essenciais para reduzir a mortalidade e melhorar a qualidade de vida das pacientes.








