A psicóloga clínica Ingrid Clayton revelou, na Bienal do Livro de São Paulo, que a tendência a agradar excessivamente pode ser um sintoma de trauma não resolvido. Em entrevista realizada no domingo, 6 de maio, no Espaço Saúde e Bem-Estar do evento, a especialista explicou como a chamada “quarta reação” se diferencia das tradicionais lutas, fugas e paralisações diante de ameaças.
Entendendo a “quarta reação” ao trauma
Tradicionalmente, a literatura psicológica identifica três respostas automáticas a situações de perigo: lutar, fugir ou congelar. Clayton propõe uma quarta alternativa, que ela denomina “fawning” – traduzido como bajulação – e que consiste em buscar a aprovação alheia a qualquer custo.
Segundo a autora, esse comportamento surge quando a pessoa, inconscientemente, tenta neutralizar a ameaça ao se tornar subserviente. Ao adotar a postura de agradar, a vítima cria uma ilusão de segurança que, embora temporária, impede a confrontação direta com a fonte do medo.
O conceito foi desenvolvido ao longo de anos de prática clínica e de pesquisa sobre a neurobiologia do trauma. Clayton afirma que reconhecer a quarta reação é essencial para que o tratamento possa avançar além da simples mitigação dos sintomas.
Como a bajulação se manifesta no dia a dia
O padrão de submissão pode aparecer em diferentes ambientes, desde a convivência familiar até o ambiente profissional. Quando a pessoa sente que sua sobrevivência emocional depende da aprovação dos demais, ela tende a silenciar suas necessidades.
- Em casa, pode aceitar tarefas extenuantes para evitar conflitos.
- Na universidade, o estudante pode concordar com ideias contrárias às suas para ser aceito pelo grupo.
- No trabalho, o colaborador pode assumir responsabilidades excessivas para ser visto como indispensável.
Essas atitudes, embora pareçam estratégias adaptativas, corroem a autonomia e a identidade do indivíduo. A longo prazo, o sujeito pode perder a capacidade de reconhecer seus próprios limites e desejos.
Além disso, a bajulação costuma ser acompanhada por uma hipervigilância emocional, na qual a pessoa monitora constantemente as reações alheias para ajustar seu comportamento.
Consequências da submissão excessiva
Quando a necessidade de agradar se torna compulsiva, a saúde mental sofre impactos significativos. O trauma permanece latente, alimentando sentimentos de culpa, ansiedade e baixa autoestima.
Do ponto de vista biológico, a resposta de fawning ativa o eixo hipotálamo‑hipófise‑adrenal de forma crônica, mantendo o corpo em estado de alerta moderado. Esse estado pode desencadear disfunções do sono, problemas digestivos e um aumento da sensibilidade ao estresse.
No campo relacional, a pessoa pode se tornar dependente emocionalmente, tolerando abusos ou relações tóxicas para manter a sensação de aceitação.
Por outro lado, a identificação desse padrão abre caminho para a reestruturação cognitiva e emocional, permitindo que o indivíduo reconquiste sua autonomia.
Caminhos para a superação e o papel da terapia
Clayton recomenda, como ponto de partida, a tomada de consciência sobre a própria tendência a submeter-se. A auto‑observação, aliada a um acompanhamento terapêutico, favorece a desconstrução dos gatilhos que ativam a bajulação.
Entre as estratégias clínicas destacam‑se:
- Psicoterapia cognitivo‑comportamental (TCC): ajuda a identificar pensamentos automáticos que sustentam a necessidade de aprovação.
- Terapia de aceitação e compromisso (ACT): promove a conexão com valores pessoais, permitindo agir de acordo com eles, mesmo diante de críticas.
- Abordagens somáticas: como a terapia de integração do ciclo de vida, que trabalha a memória corporal do trauma.
O processo terapêutico também envolve a prática de dizer “não” de forma assertiva, a definição de limites claros e a construção de uma rede de apoio que valorize a autenticidade.
Ao transformar a relação de dependência emocional em uma conexão saudável, a pessoa passa a usar a empatia como ferramenta, e não como mecanismo de sobrevivência.
Ingrid Clayton reforça que a cura não é um caminho linear. Cada passo de autoconhecimento traz à tona vulnerabilidades, mas também a oportunidade de reconectar-se consigo mesmo e de criar um futuro menos condicionado ao medo da rejeição.








