A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu, nesta sexta‑feira, a autorização para iniciar os primeiros testes em seres humanos da vacina Vivaxin, desenvolvida inteiramente no Brasil. O estudo será realizado a partir de 10 de outubro de 2026, em centros de pesquisa vinculados ao Ministério da Saúde, em Minas Gerais. Trata‑se de um marco científico ao focar no Plasmodium vivax, a espécie mais prevalente de malária no território nacional.
Contexto da malária no Brasil e no mundo
Apesar de a malária ser historicamente associada à África, o Brasil registra, anualmente, milhares de casos provocados pelo Plasmodium vivax. Em 2025, o país contabilizou 118.037 diagnósticos confirmados, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde. Essa espécie do parasita apresenta um ciclo de vida mais complexo, com recaídas que dificultam o controle epidemiológico.
Nas Américas e na Ásia, o Plasmodium vivax também representa a maior parcela dos casos, o que evidencia a necessidade de soluções específicas para esse tipo de malária. Enquanto as vacinas aprovadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2021 combatem o Plasmodium falciparum, responsável por 95% das mortes globais, ainda não havia uma alternativa eficaz contra o vivax até o desenvolvimento da Vivaxin.
- Distribuição global da malária: 95% das mortes na África (Plasmodium falciparum).
- Prevalência do Plasmodium vivax: Brasil, América Latina e partes da Ásia.
- Casos brasileiros em 2025: 118.037.
Vivaxin: a inovação brasileira na luta contra a malária
O imunizante, batizado de Vivaxin, foi criado pelo Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Trata‑se da primeira vacina do mundo projetada especificamente para prevenir a infecção pelo Plasmodium vivax, utilizando uma tecnologia de subunidades proteicas que estimula a resposta imunológica sem risco de infecção.
A escolha do nome “Vivaxin” reflete a orientação do projeto: proteger a população contra a forma mais recorrente da doença no país. O desenvolvimento contou com apoio financeiro de 12 milhões de reais provenientes da pasta de inovação em saúde, recursos essenciais para avançar nas fases clínicas 1, 2 e 3.
Além da inovação científica, a Vivaxin traz benefícios econômicos. A produção nacional reduz a dependência de insumos importados, gera empregos qualificados e fortalece a cadeia produtiva de biotecnologia brasileira.
Detalhes da primeira fase dos ensaios clínicos
A fase 1 do estudo envolverá 48 voluntários saudáveis, com idades entre 18 e 59 anos, que nunca foram infectados pelo parasita. Os participantes serão divididos em dois grupos: um receberá a vacina Vivaxin e o outro receberá um placebo, permitindo a comparação direta de segurança e imunogenicidade.
Cada participante receberá três doses da formulação, administradas em intervalos de 28 dias. O acompanhamento clínico será intensivo, com avaliações de reações locais e sistêmicas, bem como a medição de anticorpos específicos contra o Plasmodium vivax. O período de observação se estenderá por 360 dias após a primeira aplicação.
- Quantidade de voluntários: 48.
- Idade dos participantes: 18 a 59 anos.
- Esquema de dosagem: 3 doses, intervalo de 28 dias.
- Duração do acompanhamento: 360 dias.
Os resultados obtidos nesta fase preliminar determinarão se a vacina avança para as etapas subsequentes, que incluirão testes em populações em áreas endêmicas e, eventualmente, a aprovação para uso em massa.
Impactos esperados e próximos passos
Se a Vivaxin demonstrar segurança e eficácia, ela poderá transformar a estratégia de controle da malária no Brasil, complementando as medidas de diagnóstico precoce e tratamento com antimaláricos. A redução de casos recorrentes traria alívio ao sistema de saúde, diminuindo custos hospitalares e melhorando a qualidade de vida das comunidades mais vulneráveis.
Além do benefício nacional, a vacina tem potencial para ser exportada para outros países da América Latina e da Ásia que enfrentam o mesmo desafio com o Plasmodium vivax. A colaboração internacional poderia acelerar a disponibilidade de uma ferramenta preventiva que ainda não existe no mercado global.
O Ministério da Saúde já sinalizou que, caso os ensaios avancem conforme o planejado, o próximo passo será a produção em escala piloto, seguida de parcerias com a indústria farmacêutica para garantir a distribuição ampla e acessível.
Em síntese, a autorização da Anvisa representa não apenas um avanço científico, mas também um compromisso do Brasil com a inovação em saúde pública, reforçando a capacidade do país de gerar soluções autônomas para doenças que afetam milhões de pessoas ao redor do mundo.








