Leandro de Souza, reconhecido como o homem mais tatuado do Brasil, recebeu o diagnóstico de câncer de bexiga invasivo em junho de 2024, no Hospital das Clínicas de São Paulo. A doença já havia alcançado a camada muscular da bexiga, exigindo abordagens terapêuticas avançadas. O caso ganhou destaque nacional por unir a história de vida singular do paciente ao desafio clínico de um tumor de alto grau.
Entendendo o câncer de bexiga
O carcinoma urotelial, também chamado de câncer de bexiga, nasce nas células que revestem a parte interna do órgão. Inicialmente, o tumor permanece confinado à mucosa, mas pode progredir para a camada muscular (estágio T2) e, posteriormente, invadir linfonodos e órgãos distantes.
Segundo o oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, a maioria dos casos se desenvolve de forma lenta, permitindo a detecção precoce quando o sintoma mais comum – sangue visível na urina (hematúria) – aparece. Contudo, a hematúria costuma ser intermitente e indolor, o que leva muitas pessoas a postergar a consulta médica.
Nos Estados Unidos, aproximadamente 50% dos tumores são identificados ainda na camada interna, possibilitando a remoção endoscópica sem necessidade de incisão cutânea. No Brasil, os números são semelhantes, mas o diagnóstico tardio ainda é frequente, sobretudo em pacientes com fatores de risco acumulados.
Quando o tumor ultrapassa a mucosa e invade o músculo, o tratamento padrão muda radicalmente: a cistectomia radical – remoção completa da bexiga – passa a ser recomendada, geralmente acompanhada de quimioterapia neoadjuvante.
Fatores de risco e a relação com tatuagens
O tabagismo permanece o principal fator de risco, multiplicando por três a probabilidade de desenvolvimento do câncer de bexiga, de acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia. Além disso, a exposição ocupacional a substâncias químicas como aminas aromáticas, encontradas em indústrias de tintas, borracha, couro, têxtil e gráficas, aumenta significativamente o risco.
Outros fatores reconhecidos incluem:
- Idade avançada – cerca de 90% dos pacientes têm mais de 55 anos.
- História familiar de neoplasias urológicas.
- Infecções crônicas do trato urinário.
- Exposição a radiação ionizante na região pélvica.
Embora a tinta de tatuagem contenha pigmentos e solventes que, teoricamente, poderiam ser carcinogênicos, a literatura científica ainda não comprova uma ligação direta com o câncer de bexiga. O biomédico que identificou o tumor de Leandro afirmou que o médico responsável descartou qualquer relação entre o procedimento de remoção de tatuagens e a neoplasia.
Estudos disponíveis baseiam‑se majoritariamente em relatos de caso e em modelos teóricos, sem evidência robusta que associe pigmentos de tatuagem a tumores uroteliais. Ainda assim, o tema permanece em debate e pode demandar novas pesquisas epidemiológicas.
Opções de tratamento e prognóstico
Para tumores restritos à mucosa, a ressecção transuretral (RTU) é o procedimento de escolha. Um instrumento especial é introduzido pela uretra, permitindo a remoção do tecido tumoral sem cortes externos. Em muitos casos, a terapia adjuvante com o bacilo de Calmette‑Guérin (BCG) é aplicada diretamente na bexiga, estimulando a resposta imunológica contra células residuais.
No estágio invasivo, como o de Leandro, as Diretrizes Brasileiras Conjuntas de 2026 recomendam a cistectomia radical precedida de quimioterapia neoadjuvante. O regime padrão inclui cisplatina, frequentemente associado à imunoterapia (por exemplo, inibidores de PD‑1/PD‑L1), antes e depois da cirurgia.
Leandro deverá passar por quatro a seis ciclos de quimioterapia antes da cirurgia, prevista para 2027, conforme relatado pelo paciente. Caso ele seja elegível para cisplatina, o protocolo pode incluir a combinação de quimioterapia e imunoterapia, considerada a estratégia com maior nível de evidência nos ensaios clínicos recentes.
Após a remoção da bexiga, os urologistas costumam criar uma neobexiga utilizando um segmento do intestino delgado ou cólon. Essa reconstrução permite que o paciente armazene e elimine a urina de forma mais natural, embora exija acompanhamento rigoroso para prevenir complicações como refluxo ou infecção.
O prognóstico depende de vários fatores: estágio tumoral no momento da cirurgia, margem de ressecção livre de tumor, resposta à quimioterapia e estado geral de saúde do paciente. Estudos indicam que a taxa de sobrevida de cinco anos para câncer de bexiga invasivo pode variar entre 40% e 60% quando a cistectomia é realizada em tempo hábil.
Além do tratamento curativo, o acompanhamento pós‑operatório inclui exames de imagem periódicos, citologia urinária e, em alguns casos, cystoscopia de vigilância para detectar recidivas precocemente.
O Instituto Nacional do Câncer (INCA) projeta, para o triênio 2026‑2028, cerca de 13.110 novos casos de câncer de bexiga por ano no Brasil, com 9.040 ocorrendo em homens. Em 2024, a doença foi responsável por 5.483 óbitos no país, reforçando a necessidade de campanhas de conscientização e diagnóstico precoce.
Para a população geral, a mensagem central permanece: qualquer alteração na cor ou volume da urina, mesmo que intermitente, deve ser avaliada por um urologista. A detecção precoce salva vidas e reduz a necessidade de intervenções radicais.
O caso de Leandro de Souza ilustra como um diagnóstico inesperado pode transformar a trajetória de alguém que viveu sob os holofotes por sua arte corporal. Sua jornada, marcada por cirurgias, quimioterapia e a perspectiva de uma nova forma de armazenar urina, serve de alerta e inspiração para milhares de brasileiros que ainda desconhecem os sinais do câncer de bexiga.
Em resumo, o câncer de bexiga invasivo requer uma abordagem multidisciplinar que envolve urologia, oncologia clínica, radioterapia e patologia. O acesso a protocolos atualizados, como as Diretrizes Brasileiras Conjuntas de 2026, garante que pacientes como Leandro recebam o tratamento mais eficaz disponível, aumentando as chances de cura e qualidade de vida.








